Sociedade Paliativa: quando a dor deixa de falar
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*Sociedade Paliativa: quando a dor deixa de falar*
Vivemos um tempo que tenta, a qualquer custo, eliminar a dor. Não apenas a dor física, mas toda forma de negatividade, conflito, frustração e limite. Byung-Chul Han chama esse horizonte de sociedade paliativa: uma sociedade que não suporta o sofrimento, que o medicaliza, o silencia e o transforma em falha individual. A dor deixa de ser linguagem, deixa de ser vínculo, deixa de ser experiência compartilhável. Em seu lugar, instala-se uma anestesia contínua — emocional, política e simbólica — que promete bem-estar permanente, mas produz sujeitos cada vez mais isolados, cansados e esvaziados de sentido .
Nessa sociedade, sofrer tornou-se quase um erro moral. A exigência não é mais “obedeça”, mas “seja feliz”. A positividade substitui a disciplina, e a autoexploração substitui a repressão. Cada um deve gerir a própria dor como um problema privado, psicológico, químico, nunca social. Analgésicos, discursos motivacionais, likes, performances de felicidade e métricas de produtividade cumprem a mesma função: impedir que a dor fale, que se transforme em crítica, em pergunta, em laço. A dor que não encontra palavra retorna como sintoma crônico, como depressão, como automutilação silenciosa, como cansaço do eu — um cansaço que não cria comunidade, mas enclausura.
Han mostra que, ao expulsar a dor, expulsamos também a verdade. A dor é aquilo que resiste, que fere, que interrompe o fluxo liso do igual. Ela marca diferenças, cria limites, revela o que importa. Sem dor, tudo se torna equivalente, indiferente, intercambiável. O mundo anestesiado perde densidade, perde realidade. A digitalização contínua, o excesso de estímulos e a cultura do “curtir” produzem um sujeito que não se deixa afetar profundamente. Quando nada dói, nada toca. E quando nada toca, a própria experiência da vida se esvazia.
A clínica, a política e a ética são atravessadas por esse fenômeno. Uma sociedade que não tolera a dor também não tolera o conflito, o dissenso, o outro. Busca consenso rápido, soluções paliativas, harmonias artificiais. Mas não há transformação sem atravessamento. Não há desejo sem falta. Não há amor sem risco. A tentativa de eliminar a dor acaba produzindo mais sofrimento, justamente porque retira da dor sua função simbólica. O que Han nos convoca a pensar é menos como evitar a dor e mais como restituir à dor a possibilidade de dizer algo, de inscrever-se numa narrativa, de voltar a ser experiência compartilhada.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja curar toda dor, mas reaprender a escutá-la. Onde tudo deve ser aliviado imediatamente, a dor insiste como resto, como verdade incômoda, como aquilo que resiste à lógica da performance e do bem-estar obrigatório. Escutar a dor — na clínica, na cultura, na política — é recolocar a vida para além da mera sobrevivência. É devolver à existência sua espessura, seu risco e sua potência de sentido.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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