A Exaustão do Eu: Freud na Era da Autoexploração
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*A Exaustão do Eu: Freud na Era da Autoexploração*
Vivemos um tempo em que a promessa de liberdade se converteu em nova forma de dominação. Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, descreve com precisão o sujeito contemporâneo como alguém aprisionado por uma lógica de desempenho ilimitado. Já não é necessário um outro que proíba, imponha ou castigue — o sujeito moderno explora a si mesmo em nome de um ideal de produtividade infinita. Ele é, ao mesmo tempo, o patrão e o escravo de si. O que se apresenta como liberdade se revela, na verdade, como uma forma sofisticada de servidão: uma servidão voluntária ao imperativo de ser sempre mais.
Essa crítica não apenas ecoa, mas se aprofunda quando lida à luz da psicanálise de Freud. No texto O Eu e o Id (1923), Freud descreve a formação do supereu como a interiorização da autoridade parental, instância psíquica que se torna fonte de exigência moral implacável. O supereu, escreve ele, pode ser mais cruel do que qualquer pai real. É essa figura que nos permite compreender a natureza da autoexploração contemporânea: o sujeito neoliberal não precisa de um capataz externo porque carrega dentro de si uma instância que exige, vigia, pune e acusa. A moral do desempenho funciona como esse supereu invisível que, em nome do ideal, esgota o sujeito em culpa e insuficiência. Mesmo sem cometer falta alguma, ele se sente culpado por não render o suficiente, não ser o bastante, não corresponder à imagem idealizada que persegue.
Esse estado de constante cobrança, de vigilância interna, se inscreve perfeitamente no que Freud chamou, em 1930, de mal-estar na civilização. Para ele, o sofrimento humano não é acidente social, mas consequência inevitável das exigências civilizatórias. A renúncia pulsional, a repressão dos desejos e a internalização das proibições são o preço que se paga por viver em sociedade. Mas Freud percebe também que essa renúncia não se limita à repressão das pulsões sexuais ou agressivas. Ela se converte em angústia, culpa e autossabotagem. No mundo contemporâneo, tal como Han descreve, essa renúncia assume uma nova forma: não se trata mais de conter o desejo, mas de exigi-lo em excesso. A positividade do desempenho substitui a repressão da interdição. A ordem agora é desejar sempre mais, produzir mais, estar sempre motivado — e isso esgota o aparelho psíquico.
A esse esgotamento, Han chama de "cansaço da alma". Freud, décadas antes, já havia nomeado esse impasse pelo conceito de pulsão de morte. Em Além do princípio do prazer (1920), ele propõe que há algo no sujeito que insiste em repetir o sofrimento, em se encaminhar para a inércia, o fracasso, a destruição silenciosa. A compulsão à repetição, observada nos sintomas e nos fracassos reincidentes, denuncia a presença de uma força que atua além do prazer. No sujeito da sociedade do desempenho, essa força aparece disfarçada: o fracasso é vivido como insuficiência pessoal, mas, na verdade, responde a um excesso de exigência que o próprio sujeito impõe a si, em nome de um ideal. A exaustão do burnout, a depressão silenciosa, os transtornos de ansiedade que atravessam o tempo atual não são desvios individuais, mas sintomas de um regime psíquico coletivo que implode por dentro.
Freud descreve ainda, em Introdução ao narcisismo (1914), a formação do Ideal do Eu, figura que representa o horizonte de perfeição que o sujeito persegue como compensação do narcisismo perdido da infância. O sujeito do neoliberalismo é colonizado por esse Ideal: ele precisa ser tudo, ter tudo, mostrar tudo. A positividade tóxica, a exigência de felicidade constante, a exposição nas redes sociais como vitrines do eu idealizado — tudo isso configura um cenário onde o supereu opera em plena atividade, disfarçado de liberdade e realização pessoal. O gozo do Ideal é, paradoxalmente, o motor do sofrimento. O sujeito adoece tentando realizar aquilo que o estrutura como falta. Ele não percebe que aquilo que o move — o ideal de performance, sucesso, superação — é também aquilo que o consome.
Por isso, a leitura freudiana lança luz sobre a aparente novidade da sociedade do cansaço: o que Han descreve não é uma mutação da estrutura psíquica, mas a intensificação de mecanismos que Freud já havia identificado. O supereu, a renúncia pulsional, a pulsão de morte e o Ideal do Eu são categorias que nos permitem compreender que o sofrimento contemporâneo não é mera consequência social, mas efeito psíquico da civilização em sua forma mais refinada. O neoliberalismo performativo nada mais é do que a subjetividade capturada pelo gozo do dever. Não há mais espaço para o desejo inconsciente, para o sintoma como mensagem cifrada, nem para o recalque como organizador da vida psíquica. Tudo deve ser expresso, visível, mensurável — e é justamente essa transparência total que adoece a alma.
O sujeito cansado é, em última instância, o sujeito que perdeu o direito ao silêncio do inconsciente. Freud nos permite reconhecer que, por trás da positividade do desempenho, opera o velho drama da civilização: a guerra entre as exigências sociais e a verdade pulsional do sujeito. Assim como o neurótico da Viena do século XIX, o burnout da atualidade é o novo sintoma da alma civilizada — uma alma que adoece por não poder mais desejar com liberdade.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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