E se a esperança também puder ser uma forma de crueldade?
🧐📄 *Textão do dia*
*E se a esperança também puder ser uma forma de crueldade?*
Há algo profundamente sedutor na promessa de que basta mudar a mentalidade, desejar com força suficiente ou reorganizar os pensamentos para que a vida finalmente se encaixe.
É justamente contra essa promessa que Luiz Felipe Pondé escreve em *Por que detesto literatura de autoajuda e motivacional?*. Sua crítica não é simplesmente ao otimismo. É à ideia de que podemos fabricar esperança por decisão, como se o sofrimento humano fosse resultado de uma atitude mental inadequada. Para Pondé, esse discurso termina sendo descompadecido porque transforma o sofrimento em responsabilidade daquele que sofre.
Há, por trás disso, uma questão mais incômoda.
A vida não oferece garantias. A contingência atravessa nossos projetos, nossos vínculos e nossos corpos. Há fracassos que não decorrem de falta de esforço, perdas que nenhuma “mudança de mindset” repara e acontecimentos para os quais simplesmente não existe preparação.
Por isso Pondé aproxima sua reflexão de Schopenhauer: “a vida é essencialmente sofrimento”.
Não se trata, porém, de transformar o pessimismo em outro produto motivacional às avessas. O próprio texto insiste que reconhecer a dureza da existência não significa fazer do desespero nosso único destino.
Talvez justamente aí esteja a parte mais interessante do argumento.
Quando abandonamos a obrigação de sermos permanentemente positivos, talvez surja espaço para algo menos grandioso e mais humano: perdão, compaixão e misericórdia. Pondé chama essas virtudes de raras. Elas não aparecem como técnicas de alta performance, mas como respostas frágeis diante de uma existência que não controlamos.
Houellebecq, citado no texto, escreve que “a desilusão não é uma coisa má”. Talvez porque algumas ilusões precisem cair para que possamos olhar a vida sem propaganda.
Freud aparece no final dessa conversa lembrando que a felicidade é episódica, não uma condição permanente da existência.
Talvez amadurecer não seja aprender a pensar positivo.
Talvez seja conseguir continuar vivendo sem precisar que a realidade prometa aquilo que nunca prometeu.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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