Subjetividade contemporânea

Quando o excesso de fazer nos impede de perceber

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 11:34

2 min de leitura
🧐📄*Textão do dia* *Quando o excesso de fazer nos impede de perceber* “Quem está ocupado o tempo todo torna-se cego para com o mistério do mundo.” A frase de Luiz Felipe Pondé talvez diga mais sobre nossa época do que parece à primeira vista. O problema não está apenas em termos muitas coisas para fazer, mas em transformarmos a própria existência numa sequência de tarefas, metas e resultados. O tempo deixa de ser vivido e passa a ser administrado. Pondé recupera a ideia do espanto como uma forma de relação com o mundo. Não se trata simplesmente de surpresa, mas da possibilidade de permanecermos diante daquilo que ainda não compreendemos. O contrário disso é um mundo no qual tudo precisa ser explicado, calculado, utilizado ou convertido em resultado. Talvez seja justamente aqui que a psicanálise tenha algo importante a dizer. Bion nos ensinou que conhecer o outro exige suportar momentos de não saber. Winnicott mostrou que existe uma diferença profunda entre simplesmente fazer e poder ser. Ogden, por sua vez, nos ajuda a pensar uma escuta em que algo novo pode surgir entre analista e analisando antes mesmo que alguém consiga nomeá-lo. Mas como escutar aquilo que ainda não tem nome quando estamos apressados para encontrar uma resposta? Na clínica, o excesso de atividade também pode funcionar como defesa. Podemos preencher o silêncio com perguntas, interpretações e teorias justamente para não permanecermos diante do desconhecido. O analista excessivamente ocupado em compreender corre o risco de deixar de perceber. Talvez o silêncio não seja ausência de trabalho. Talvez seja justamente onde determinado trabalho psíquico começa. O texto de Pondé fala do shabat como uma interrupção da lógica da produtividade, um tempo em que a existência não está submetida ao cálculo do sucesso. Há algo profundamente psicanalítico nessa interrupção. Porque algumas coisas somente aparecem quando paramos de procurá-las. Na vida e na clínica, talvez seja necessário recuperar o direito ao espanto. Quando tudo precisa imediatamente significar alguma coisa, perdemos a possibilidade de encontrar aquilo que ainda não sabemos pensar.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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