Quando o excesso de fazer nos impede de perceber
🧐📄*Textão do dia*
*Quando o excesso de fazer nos impede de perceber*
“Quem está ocupado o tempo todo torna-se cego para com o mistério do mundo.” A frase de Luiz Felipe Pondé talvez diga mais sobre nossa época do que parece à primeira vista. O problema não está apenas em termos muitas coisas para fazer, mas em transformarmos a própria existência numa sequência de tarefas, metas e resultados. O tempo deixa de ser vivido e passa a ser administrado.
Pondé recupera a ideia do espanto como uma forma de relação com o mundo. Não se trata simplesmente de surpresa, mas da possibilidade de permanecermos diante daquilo que ainda não compreendemos. O contrário disso é um mundo no qual tudo precisa ser explicado, calculado, utilizado ou convertido em resultado.
Talvez seja justamente aqui que a psicanálise tenha algo importante a dizer.
Bion nos ensinou que conhecer o outro exige suportar momentos de não saber. Winnicott mostrou que existe uma diferença profunda entre simplesmente fazer e poder ser. Ogden, por sua vez, nos ajuda a pensar uma escuta em que algo novo pode surgir entre analista e analisando antes mesmo que alguém consiga nomeá-lo.
Mas como escutar aquilo que ainda não tem nome quando estamos apressados para encontrar uma resposta?
Na clínica, o excesso de atividade também pode funcionar como defesa. Podemos preencher o silêncio com perguntas, interpretações e teorias justamente para não permanecermos diante do desconhecido. O analista excessivamente ocupado em compreender corre o risco de deixar de perceber.
Talvez o silêncio não seja ausência de trabalho. Talvez seja justamente onde determinado trabalho psíquico começa.
O texto de Pondé fala do shabat como uma interrupção da lógica da produtividade, um tempo em que a existência não está submetida ao cálculo do sucesso. Há algo profundamente psicanalítico nessa interrupção.
Porque algumas coisas somente aparecem quando paramos de procurá-las.
Na vida e na clínica, talvez seja necessário recuperar o direito ao espanto.
Quando tudo precisa imediatamente significar alguma coisa, perdemos a possibilidade de encontrar aquilo que ainda não sabemos pensar.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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