Burn-out não é cansaço: é colapso do desejo
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*Burn-out não é cansaço: é colapso do desejo*
Durante muito tempo, o burn-out foi tratado como excesso de trabalho, má gestão do tempo ou falta de autocuidado. O texto clássico de Herbert Freudenberger, de 1974, já mostrava outra coisa: o burn-out não começa no corpo, começa no **ideal**. Começa quando o sujeito investe libidinalmente demais no trabalho, na função de cuidar, no lugar de quem sustenta tudo — e perde, aos poucos, a possibilidade de sustentar a si mesmo. Não é à toa que os mais atingidos são os dedicados, os comprometidos, os que “dão conta”. O problema nunca foi dar demais. O problema é **dar sem resto**.
Freud nos ajuda a ler esse esgotamento como um **colapso do Eu** diante de exigências superegóicas cruéis. A culpa empurra o sujeito a trabalhar mais, a não parar, a não falhar — até que o corpo e o afeto denunciem o impossível. Melanie Klein aprofunda: quando o cansaço vira irritabilidade, paranoia e onipotência, estamos diante de defesas maníacas contra uma depressão que não pôde ser elaborada. O sujeito que diz “eu aguento” já está em queda. A onipotência é o último recurso antes do esvaziamento.
Winnicott mostraria que, no burn-out, o sujeito continua funcionando, mas **sem estar ali**. Um falso self profissional se mantém em pé enquanto o verdadeiro self se retrai. O ambiente, que deveria sustentar, exige adaptação excessiva. Não há mais espaço para brincar, criar, errar. Só resta sobreviver. E quando o trabalho deixa de ser espaço transicional e vira apenas obrigação, o desejo não circula mais. O que resta é a repetição cansada.
André Green talvez seja o autor que melhor nomeia esse estado: o burn-out como expressão do **trabalho do negativo**. Não é uma depressão ruidosa, mas um esvaziamento silencioso. O sujeito segue comparecendo, mas sem investimento, sem vitalidade, sem sentido. Uma depressão branca. Algo morreu ali — muitas vezes, o ideal do Eu — e não houve tempo, espaço ou autorização para fazer luto. O sujeito segue, mas já não está.
Talvez seja hora de dizer com clareza: **burn-out não é fraqueza**, é excesso de ideal. Não é falta de compromisso, é compromisso sem limite. Não se trata de descansar melhor, mas de recolocar o desejo em circulação. E isso exige algo radical: parar, simbolizar a perda, aceitar limites e reconstruir um modo de estar no trabalho que não exija a própria extinção.
Porque quando o sujeito some para que a função sobreviva, o preço é alto demais.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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