Clínica e técnica psicanalítica

Pensar clinicamente, com André Green

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:36

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*TEXTÃO DO DIA* *Pensar clinicamente, com André Green* Há uma diferença importante entre conhecer psicanálise e pensar psicanaliticamente diante de alguém. É justamente nesse intervalo que André Green situa o pensamento clínico. Logo no início de O pensamento clínico, Green escreve que a clínica “observa, percebe, persegue, adivinha”. A escolha dos verbos importa: nenhum deles descreve uma atividade passiva. Escutar não é simplesmente receber aquilo que o paciente diz. É acompanhar movimentos, rupturas, repetições, silêncios e formas de presença que vão produzindo sentido no encontro. Por isso, a teoria não pode chegar antes do paciente. Quando o analista transforma Freud, Klein, Winnicott, Lacan ou o próprio Green em um mapa rígido, corre o risco de encontrar exatamente aquilo que já esperava encontrar. O pensamento clínico começa quando o conceito deixa de funcionar como resposta e passa a funcionar como hipótese. Green parece nos convidar a sustentar uma posição mais incômoda: estar suficientemente orientado pela teoria para não trabalhar às cegas, mas suficientemente livre dela para que alguma coisa inesperada possa acontecer. Isso se torna especialmente importante diante dos pacientes que não cabem facilmente na lógica clássica da neurose. Estados-limite, falhas de simbolização, vazios, atuações e formas de sofrimento marcadas pelo negativo exigem que o analista escute não apenas o que está representado, mas aquilo que encontra dificuldades para tornar-se representação. Assim, talvez o pensamento clínico não seja simplesmente pensar sobre o paciente. É pensar com aquilo que acontece entre paciente e analista. Transferência, contratransferência, enquadre, silêncio e interpretação deixam de ser peças separadas de uma técnica. Tornam-se acontecimentos de um campo vivo. E há algo profundamente ético nisso: o analista precisa suportar não compreender depressa demais. Porque, algumas vezes, nossa melhor escuta começa justamente quando deixamos de perguntar “qual conceito explica este paciente?” e conseguimos perguntar: “O que este encontro está exigindo que eu consiga pensar?” Michel Francisco

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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