Quando a dor ainda não encontrou palavras
*Textão do dia*
*Quando a dor ainda não encontrou palavras*
Há pessoas que chegam à análise como quem procura abrigo durante uma tempestade. O que sentem ocupa tudo: o corpo, os vínculos, a percepção do mundo. A distância de alguém pode ganhar a dimensão de abandono; uma frustração pode ser vivida como ameaça à própria existência. Faltam margens para que a emoção possa ser pensada.
As narrativas clínicas reunidas por Marisa Pelella Mélega e Aparecida Malandrin Andriatte nos aproximam desse sofrimento. Embora os transtornos borderline e os estados psicóticos tenham diferenças fundamentais, a obra mostra como podem envolver angústias que excedem os recursos disponíveis para dar sentido ao vivido.
Nesse contexto, o vínculo analítico participa da construção da capacidade de pensar. A presença do analista, sua escuta e sua possibilidade de receber aquilo que parece insuportável ajudam, gradualmente, a dar forma à experiência. Uma sensação pode encontrar uma imagem; uma imagem pode encontrar palavras; as palavras podem começar a compor uma história.
Esse trabalho exige atenção ao tempo. Uma interpretação pode ser sentida como invasão quando chega antes de haver condições para recebê-la. Aproximar-se implica perceber o que o paciente consegue suportar naquele encontro e reconhecer quando é necessário esperar.
Também exige que o analista examine o que acontece consigo. O cansaço, a irritação, o medo e a vontade de desistir atravessam as narrativas do livro. Reconhecer essas experiências pode ampliar a compreensão da relação e dos próprios limites. A continência emocional precisa de enquadre, reflexão e condições para continuar existindo.
Penso que há uma delicadeza decisiva nessa clínica: perceber a busca por contato mesmo quando ela chega misturada à desconfiança, à hostilidade ou ao afastamento. A possibilidade de encontro vai sendo construída entre avanços, rupturas e tentativas de retomada.
Talvez uma transformação importante aconteça quando alguém consegue sentir uma dor sem ser inteiramente tomado por ela. Quando pode reconhecer que teme perder alguém, em vez de viver cada distância como uma catástrofe já consumada.
Para quem vive em estado de inundação, encontrar uma palavra para o que sente pode ser o primeiro pedaço de chão.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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