Infância, trauma e constituição do sujeito

O espelho não nos diz quem somos

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 12:53

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*TEXTÃO DO DIA* *O ESPELHO NÃO NOS DIZ QUEM SOMOS* Talvez uma das experiências mais inquietantes da existência humana seja descobrir que a imagem que oferecemos ao mundo nunca coincide inteiramente com aquilo que somos. O espelho devolve uma aparência, mas não revela uma história. Em *A criança do espelho*, Françoise Dolto, em diálogo com J.-D. Nasio, nos convida a pensar que a constituição subjetiva não depende simplesmente de reconhecer um corpo refletido, mas da possibilidade de simbolizar aquilo que se experimenta. Dolto observa que crianças cegas de nascença, embora privadas da experiência visual, conservam *“uma rica imagem inconsciente do corpo”* (p. 37). Essa constatação desloca uma compreensão puramente visual da identidade. O corpo que habitamos não se reduz à anatomia, tampouco à aparência. É também um corpo atravessado pelas palavras, pelos afetos e pelas experiências relacionais. Antes de reconhecermos nossa imagem, já somos afetados pelo modo como alguém nos acolhe, nos nomeia e nos reconhece. A experiência do espelho, entretanto, não é necessariamente tranquilizadora. Dolto descreve o desconcerto da criança diante de seu reflexo e destaca a importância da presença de um adulto capaz de dizer: *“isso é a sua imagem no espelho”* (p. 39). A distinção parece pequena, mas carrega consequências fundamentais. A imagem representa o sujeito, sem esgotá-lo. Quando a palavra introduz essa diferença, permite que aquilo que poderia permanecer como estranhamento encontre uma possibilidade de simbolização. O outro não oferece apenas uma explicação; participa da construção de um sentido. Essa reflexão encontra ressonância particular em nosso tempo. Vivemos cercados por espelhos digitais, fotografias e representações cuidadosamente administradas. Multiplicamos imagens de nós mesmos, mas isso não significa que ampliamos nossa capacidade de nos reconhecer. Minha leitura é que a atual exigência de visibilidade pode intensificar uma antiga dificuldade humana: confundir o reconhecimento recebido do olhar alheio com a experiência íntima de existir. Na clínica, essa distinção nos recorda que escutar alguém implica alcançar aquilo que sua apresentação não consegue comunicar. Dolto nos oferece, assim, uma provocação que ultrapassa a infância: talvez o sofrimento não esteja apenas na imagem que construímos de nós mesmos, mas na dificuldade de encontrar palavras para aquilo que nenhuma imagem consegue representar. Afinal, *de que adianta sermos vistos por todos quando permanecemos desconhecidos de nós mesmos?*

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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