Quando a vida deixa de caber em si
*TEXTÃO DO DIA*
*QUANDO A VIDA DEIXA DE CABER EM SI*
Talvez uma das experiências mais dolorosas da existência seja perceber que já não conseguimos habitar a vida que construímos. Há momentos em que aquilo que sustentava nossa identidade se transforma em fonte de sofrimento. Em A morte de si, Marcelo Veras nos apresenta uma distinção inquietante: “a morte de si”, algo bem distinto da “morte de mim” (p. 22). Ao investigar o suicídio, o autor nos convida a pensar sobre as diferentes formas pelas quais o sujeito se relaciona com a perda, com o desejo e com aquilo que se tornou insuportável em sua própria existência.
Essa formulação não significa que o suicídio seja simplesmente uma tentativa de transformação subjetiva. Sua gravidade exige que não o reduzamos a uma metáfora, tampouco a uma explicação universal. O que Veras questiona é a tendência de compreender o sofrimento exclusivamente pela perspectiva da doença, desconsiderando a singularidade de quem sofre. Afinal, aquilo que aparece como desorganização pode carregar uma história de identificações, perdas e conflitos que não encontra lugar nas palavras.
Há uma observação particularmente importante para a clínica: “não devemos ter pressa em resolver os sintomas dos pacientes” (Veras, p. 25). O sintoma não é apenas algo que perturba; pode também constituir uma tentativa precária de sustentação psíquica. Minha leitura é que nossa época, tão comprometida com a produtividade, a felicidade e a eliminação rápida do desconforto, frequentemente transforma o sofrimento em uma falha que precisa ser corrigida. Entretanto, silenciar uma manifestação não significa necessariamente compreender aquilo que a produziu.
A psicanálise introduz outra temporalidade. Veras escreve que “falar para um outro, qualquer outro, já implica a crença” (p. 42). Existe nessa observação uma dimensão fundamental da escuta: dirigir a palavra a alguém pressupõe alguma possibilidade de encontro, mesmo quando o sujeito parece incapaz de reconhecer uma saída. Isso não substitui as medidas de proteção indispensáveis diante do risco de suicídio, mas recorda que o cuidado não pode prescindir da singularidade.
Talvez o maior desafio da clínica contemporânea seja sustentar um espaço onde o sofrimento possa encontrar palavras antes de ser inteiramente traduzido em classificações. Porque, diante de alguém que já não suporta a própria existência, precisamos perguntar não apenas o que está acontecendo com essa pessoa, mas também o que, em sua história, deixou de encontrar condições para continuar vivendo?
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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