A psicanálise não acontece entre quatro paredes
*TEXTÃO DO DIA*
*A PSICANÁLISE NÃO ACONTECE ENTRE QUATRO PAREDES*
Talvez um dos maiores equívocos da prática psicanalítica seja acreditar que o consultório, o divã e a presença física garantem, por si mesmos, a existência de uma análise. Podemos compartilhar uma sala sem estabelecer um verdadeiro encontro, assim como podemos estar separados por milhares de quilômetros e construir um espaço de profunda intimidade psíquica. Em A virtualidade do dispositivo de trabalho psicanalítico e o atendimento remoto, Luís Claudio Figueiredo apresenta uma formulação provocadora: “o dispositivo psicanalítico é sempre virtual, seja no atendimento presencial, seja no remoto” (p. 66).
Essa afirmação desloca nossa compreensão do enquadre. A virtualidade, aqui, não se refere à tecnologia, mas à possibilidade de constituir um espaço psíquico no qual lembranças, fantasias, transferências e experiências emocionais encontrem condições para serem elaboradas. Retomando contribuições de André Green, Winnicott e Bion, Figueiredo sustenta a importância do enquadre interior do analista. Como afirma, “Não são os móveis nem são as paredes da sala que a convertem em uma sala de análise se faltar o ‘enquadre interior’ do analista” (p. 65).
Essa perspectiva nos obriga a reconhecer que a qualidade da escuta depende de algo mais profundo do que a organização material do atendimento. O analista precisa oferecer uma presença simultaneamente implicada e reservada, capaz de acolher aquilo que emerge sem imediatamente submetê-lo às suas expectativas. Figueiredo descreve essa condição como “a disposição de esperar o inesperado, manter-se no vazio, no incerto e no não-saber” (p. 70). Trata-se de uma capacidade particularmente difícil em uma sociedade que transforma rapidez, respostas e produtividade em medidas de competência.
Minha leitura é que o atendimento remoto torna visível uma questão que sempre esteve presente na clínica: a diferença entre estar disponível e estar psiquicamente presente. Uma conexão estável não garante uma escuta suficientemente sustentadora, assim como a proximidade física não impede o distanciamento emocional. Entretanto, isso não significa que todas as modalidades sejam equivalentes. A ausência do corpo, dos gestos e da atmosfera sensorial pode produzir perdas importantes, especialmente quando o sofrimento ultrapassa aquilo que consegue ser representado em palavras.
Talvez a verdadeira questão não seja simplesmente onde acontece uma análise, mas que condições precisamos construir para que alguém consiga existir, sofrer e pensar na presença de outro.
Afinal, de que adianta estarmos fisicamente diante de alguém quando nossa escuta permanece em outro lugar?
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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