Clínica e técnica psicanalítica

Cuidar também é saber se retirar

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:49

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* Cuidar também é saber se retirar Quando pensamos em cuidado, quase sempre pensamos em presença. Estar perto, acolher, sustentar, fazer alguma coisa pelo outro. Mas Luís Claudio Figueiredo, em *A metapsicologia do cuidado*, nos convida a perceber algo mais delicado: cuidar não é simplesmente estar presente. Há momentos em que o outro precisa que estejamos muito próximos e há momentos em que precisa que saibamos não ocupar todo o espaço. É nesse movimento que o cuidado acontece. Às vezes, precisamos sustentar, oferecendo aquilo que Winnicott chamou de *holding*: uma presença capaz de garantir alguma continuidade quando tudo parece ameaçar se desfazer. Em outros momentos, precisamos exercer a continência, no sentido de Bion, recebendo experiências emocionais ainda confusas e ajudando a transformá-las em algo que possa ser reconhecido, nomeado e pensado. Também precisamos ser reconhecidos. Precisamos encontrar alguém que consiga prestar atenção àquilo que temos de singular e, de alguma maneira, nos devolva a experiência de que existimos para o outro. Mas há um limite muito tênue aqui, porque até o cuidado pode sufocar. Figueiredo chama atenção para o momento em que o acolhimento excessivo produz uma experiência de “engolfamento totalitário e claustrofóbico”. O cuidado que deveria sustentar começa a aprisionar. A presença vira vigilância, a proteção se aproxima do controle e o desejo de ajudar passa, pouco a pouco, a impedir que o outro encontre sua própria maneira de existir. Talvez por isso uma das ideias mais bonitas do texto seja a de **presença reservada**. Cuidar também é saber permanecer por perto sem invadir, acompanhar sem decidir tudo pelo outro, oferecer ajuda sem fazer dele alguém eternamente dependente de nós. Figueiredo diz que é justamente nesse espaço deixado livre que o sujeito poderá “sonhar, brincar, pensar” e criar o mundo segundo suas próprias possibilidades. Na clínica, isso nos lembra que nem todo silêncio precisa ser preenchido, nem toda angústia precisa ser imediatamente retirada e nem todo sofrimento pede uma resposta pronta. Há momentos em que cuidar é sustentar. Outros em que é interpretar. E há aqueles em que cuidar profundamente de alguém significa estar suficientemente perto para que, aos poucos, ele descubra que pode caminhar com as próprias pernas. <Mensagem editada>

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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