Subjetividade contemporânea

Quando o Prazer Não Satisfaz

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:49

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🧐📄*Quando o Prazer Não Satisfaz* Há algo inquietante em uma época que promete prazer por toda parte e, ainda assim, parece produzir tanta insatisfação. Talvez o problema não esteja na falta de objetos disponíveis, mas justamente na dificuldade de transformar aquilo que vivemos em experiência psíquica. Ruggero Levy propõe pensar o psiquismo como aquilo que se constrói no encontro entre pulsão, objeto e cultura. Não somos apenas seres que sentem estímulos: precisamos transformá-los em símbolos, pensamentos, fantasias e palavras. Quando a simbolização falha, algo da própria subjetividade fica comprometido. É nesse ponto que Donald Meltzer ganha importância. Para ele, o encontro com o objeto não serve apenas para satisfazer necessidades. O outro também nos provoca, intriga, frustra e desperta o desejo de conhecer. Há algo no objeto que permanece inacessível, e é justamente esse mistério que convoca a imaginação. O que não sabemos sobre o outro precisa ser imaginado, pensado, sonhado. Talvez uma parte do mal-estar contemporâneo esteja justamente aí. Vivemos cercados por imagens, estímulos, ofertas e promessas de satisfação imediata. Mas o pensamento necessita de intervalo. Levy escreve que é no espaço entre o desejo e sua realização que se cria o pensamento. Quando toda espera parece intolerável, também diminuímos o espaço em que a fantasia poderia trabalhar. Surge então uma distinção clínica fundamental: prazer não é necessariamente satisfação. Quando uma experiência não consegue ser simbolizada, pode permanecer como algo bruto, exigindo descarga. Come-se novamente, compra-se novamente, acessa-se novamente, busca-se outra relação, outra imagem, outra excitação. O alívio acontece, mas não deixa uma experiência psíquica capaz de produzir saciedade. Levy relaciona esse fracasso da simbolização à atuação compulsiva. Talvez algumas compulsões não sejam, portanto, excesso de prazer. Talvez sejam justamente a repetição desesperada de um prazer que nunca consegue se transformar em satisfação. E talvez a clínica comece quando aquilo que precisava ser descarregado encontra, finalmente, alguém com quem possa ser pensado.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Donald Meltzer