Subjetividade contemporânea

Quando a dor não encontra palavras

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:37

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🧐📄*TEXTÃO DO DIA* *QUANDO A DOR NÃO ENCONTRA PALAVRAS* Há dores que doem mais porque não encontram linguagem. Não porque sejam necessariamente maiores, mas porque permanecem brutas, sem nome, sem forma, sem endereço. Elas atravessam o corpo, alteram o humor, invadem os vínculos, desorganizam a rotina — mas não chegam a se transformar em algo que possa ser dito. Joel Birman chama atenção para uma mudança importante no mal-estar contemporâneo: cada vez mais, a dor parece ocupar o lugar do sofrimento. E essa diferença importa. O sofrimento, por mais difícil que seja, ainda pressupõe alguma elaboração. Ele pede palavras. Supõe um destinatário. Carrega, de alguma forma, a possibilidade de dizer: “isso está acontecendo comigo”. A dor, quando permanece apenas dor, pode nos deixar fechados dentro de nós mesmos. Talvez seja por isso que tanta gente hoje não diga “estou sofrendo”, mas diga “estou exausto”, “não consigo dormir”, “não tenho paciência para ninguém”, “meu corpo está estranho”, “eu só queria desaparecer por uns dias”. O corpo fala quando a palavra falha. O excesso também. Comemos demais, trabalhamos demais, bebemos demais, rolamos a tela por horas, compramos, corremos, ocupamos cada silêncio. Nem sempre porque queremos muito alguma coisa, mas porque talvez esteja difícil demais ficar diante do que sentimos. Há uma crueldade particular em uma época que exige desempenho justamente quando o sujeito mais precisa de amparo. Tudo deve ser resolvido rapidamente: a tristeza, a angústia, o luto, o cansaço. Como se sentir fosse um defeito de funcionamento. Mas há experiências que não precisam ser eliminadas imediatamente. Precisam ser escutadas. Talvez uma das tarefas mais humanas — e também uma das mais difíceis — seja transformar dor em palavra. Porque quando conseguimos dizer o que nos atravessa, algo muda. A dor deixa de ser apenas uma coisa que acontece dentro de nós. Ela passa a poder existir entre nós. E, às vezes, é justamente aí que começa alguma possibilidade de elaboração.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Joel Birman