Subjetividade contemporânea

O Mal-Estar na Atualidade (Joel Birman)

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:18

2 min de leitura
🧐📄 Textão do Dia — O Mal-Estar na Atualidade (Joel Birman) Joel Birman nos convida a encarar de frente o mal-estar que atravessa nossa época. Em O Mal-Estar na Atualidade, o autor parte de uma releitura freudiana para investigar as novas formas de sofrimento que emergem em um mundo marcado pelo espetáculo, pelo narcisismo e pela dissolução dos laços humanos. “Vivemos em um mundo perturbado e conturbado, diante do qual nossos instrumentos interpretativos ficam aquém da agudeza e rapidez dos acontecimentos”, escreve Birman — uma advertência que soa cada vez mais atual. O psicanalista denuncia não apenas o mal-estar do sujeito, mas também o mal-estar da própria psicanálise, quando esta se torna cega diante das novas subjetividades. Segundo ele, “existe certo fundamentalismo que acomete a comunidade psicanalítica como um todo… o que nos impede de chegar a tempo nos lances e nas divididas”. O analista, portanto, precisa recomeçar: reencontrar o corpo, o afeto e a ação — dimensões esquecidas pela prática que se afastou da dor real do sujeito. Birman descreve uma cultura do narcisismo em que o olhar do outro é substituído pelo reflexo de si mesmo. O sujeito contemporâneo “encara o outro apenas como um objeto para seu usufruto”, e a solidariedade, outrora sustentada pela alteridade, “encontra-se assustadoramente em baixa”. Nesse vazio reluzente, a violência se banaliza, a medicalização substitui a palavra e o desejo cede lugar ao consumo. Mas o autor também propõe uma saída: recomeçar. “É preciso recomeçar do ponto em que estamos agora, pois não existe outra possibilidade.” Recomeçar é devolver à psicanálise sua potência crítica, sua escuta do desamparo e sua capacidade de acolher o sujeito em sua dor singular — para que o desejo volte a pulsar, mesmo entre os escombros da contemporaneidade. Ler Birman é um ato ético: é olhar para o nosso tempo sem anestesia e reconhecer, como ele diz, que “a psicanálise ainda é o saber mais consistente para indagar as relações turbulentas do sujeito com seu desejo.”

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Joel Birman