Subjetividade contemporânea

O mal-estar mudou de roupa — mas continua sentado no mesmo sofá

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 13:55

3 min de leitura
🧐📄*TEXTÃO DO DIA* *O mal-estar mudou de roupa — mas continua sentado no mesmo sofá* Freud nos ensinou que o mal-estar não é um acidente da civilização, mas **o seu preço de entrada**. Desde *O Mal-Estar na Civilização* , ele afirma que viver junto exige renunciar a partes de si, às pulsões, ao gozo imediato — e que esse sacrifício nunca é totalmente aceito pelo sujeito. A cultura restringe; o sujeito protesta. É desse atrito que nasce o mal-estar. Mas quando avançamos para a contemporaneidade, como mostram Birman, Bauman, Morin e as análises da disciplina *Mal-Estar na Cultura Atual* , percebemos que **o nome das dores mudou**, mas sua estrutura psíquica permanece. Hoje não sofremos mais apenas pela repressão das pulsões — sofremos pelo **excesso de liberdade**, pela dissolução das formas sólidas, pela performance infinita, pela competição neurótica que atravessa cada gesto comum do cotidiano. O sujeito contemporâneo, descrito por Joel Birman como “desalento, dor e desamparo ampliados”, não vive sob o peso da proibição, mas sob o peso da **exigência ilimitada**: seja mais, faça mais, apareça mais, reinvente-se mais rápido do que o algoritmo muda seu feed. A psicanálise vê, nesse cenário, não a morte da subjetividade — mas sua **hiperexposição**. O sujeito vira ele mesmo um projeto, um produto, um avatar. Como diz Edgar Morin, a cultura de massas do século XX inaugurou uma máquina que transforma desejo em mercadoria. Bauman completa: tudo é líquido, instável, substituível — inclusive nós. E é justamente aí que Freud retorna com força: **o sofrimento atual não é a falha da cultura — é o seu efeito necessário.** A pulsão quer infinito; o mundo oferece um infinito falso: conexões rápidas, prazer rápido, respostas rápidas. É uma promessa de oceanicidade digital — mas sem o amparo originário que Freud descreve. E o resultado é o que Bernard Chervet chama de “vivências de falta”: não a falta estruturante, que opera simbolização, mas a falta devastada, na qual o sujeito vive como se estivesse sempre atrasado de si mesmo, sempre devendo, sempre *faltando* em relação ao seu ideal. O mal-estar da pós-modernidade não é apenas dor — é **desorientação**. Não sabemos mais o que fazer com o desejo, com o limite, com o outro, com o tempo. Por isso a escuta psicanalítica se torna ainda mais urgente. Ela reaparece como uma espécie de bússola ético-subjetiva: um espaço onde o sujeito pode sair do império da aceleração e, pela primeira vez, *falar sem precisar performar*. Num mundo que exige funcionamento, a análise devolve **existência**. Num mundo que exige adaptação, a análise pergunta: *a que preço?* Num mundo que exige felicidade como obrigação, a análise legitima o conflito, a ambivalência e a dor — como condições da própria vida psíquica. O mal-estar não acabou. Mas talvez possamos, com Freud, Birman, Morin, Bauman e tantos outros, aprender a **escutar** o que ele tenta nos dizer — em vez de silenciá-lo com mais desempenho, mais consumo, mais rapidez, mais fuga. No fundo, talvez a pergunta de hoje não seja: “Como eliminar o mal-estar?” mas sim: “O que o mal-estar revela sobre quem estamos nos tornando?”

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.