Quando vencer nunca é suficiente
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*Quando vencer nunca é suficiente*
Há uma cena na dissertação de Mariana Hollweg Dias que condensa boa parte do drama do esporte de alto rendimento. Depois de ocupar o lugar mais alto do pódio, com a medalha de ouro no peito, a autora recorda sua própria reação: “Ganhei, mas não bati o recorde.” A vitória existia, mas parecia insuficiente porque já estava submetida a uma nova exigência.
Essa experiência ajuda a compreender uma das principais ideias do trabalho: o esporte de alto rendimento não está separado da cultura em que vivemos. A exigência permanente de alta performance, a competitividade, a busca por ultrapassar limites e por um corpo ideal também fazem parte do laço social contemporâneo e podem se tornar fontes de sofrimento.
A psicanálise introduz aqui uma diferença importante. O atleta não pode ser compreendido apenas como um corpo treinável ou uma mente que precisa ser programada para obter melhores resultados. Ele é um sujeito atravessado pelo desejo, pelas identificações e pelos ideais. Freud já observava que o ideal do eu possui também uma dimensão coletiva, podendo constituir “o ideal comum de uma família, uma classe ou uma nação.”
Por isso, o desejo de superação não é necessariamente um problema. Mariana reconhece no esporte valores como disciplina, dedicação, cooperação e capacidade de enfrentar frustrações. O sofrimento aparece quando a excelência deixa de funcionar como horizonte e se transforma em obrigação, produzindo aquilo que a autora chama de “alta performance custe o que custar”.
Talvez seja justamente aí que a escuta psicanalítica encontre seu lugar. Em vez de perguntar apenas como fazer um atleta render mais, podemos perguntar o que está em jogo para aquele sujeito quando ele precisa vencer. Afinal, algumas derrotas acontecem no placar; outras começam muito antes, quando alguém passa a acreditar que seu valor depende exclusivamente do próximo resultado.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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