Clínica e técnica psicanalítica

Quando se fechar foi uma forma de sobreviver

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:58

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🧐📄*TEXTÃO DO DIA* *QUANDO SE FECHAR FOI UMA FORMA DE SOBREVIVER* Nem todo afastamento começa com uma recusa. Às vezes, antes de existir um muro, existiu um susto. Frances Tustin nos ajuda a pensar o autismo patológico a partir de experiências muito primitivas, nas quais separação, perda e ausência podem ser vividas de maneira quase catastrófica. No capítulo “Processos autistas em ação”, ela mostra como determinadas defesas surgem justamente para proteger a criança de uma experiência interna que ainda não pode ser suportada ou elaborada. Essa ideia muda o nosso olhar. Aquilo que aparece como fechamento pode ter sido, em algum momento, uma tentativa desesperada de proteção. Antes de perguntarmos por que alguém construiu uma barreira, talvez seja necessário perguntar: o que havia do outro lado dela que parecia tão assustador? Tustin descreve um mundo psíquico em que o contato com a separação pode ser sentido não simplesmente como tristeza, mas como ameaça de perda de partes de si. Diante disso, proteger-se não é uma escolha consciente. É uma solução primitiva diante de algo que ainda não encontrou representação. O problema é que toda defesa cobra seu preço. Aquilo que impede a entrada do que ameaça também pode impedir a chegada do que nutre. A mesma barreira que protege do excesso pode dificultar o encontro, a experiência e a construção de novos vínculos. Talvez essa seja uma das lições mais delicadas da clínica: não arrancamos uma defesa apenas porque percebemos que ela aprisiona. Primeiro precisamos compreender por que ela foi necessária. Há proteções que só podem ser abandonadas quando o sujeito encontra algo suficientemente seguro para colocar em seu lugar. Por isso, antes de tentar romper uma barreira, a clínica talvez precise oferecer uma experiência diferente: presença sem invasão, proximidade sem violência e tempo suficiente para que aquilo que um dia precisou ser fechado possa, pouco a pouco, voltar a encontrar o mundo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Frances Tustin