Clínica e técnica psicanalítica

O perigo de transformar a psicanálise em uma técnica de imitação

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 16:13

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*TEXTÃO DO DIA* *O PERIGO DE TRANSFORMAR A PSICANÁLISE EM UMA TÉCNICA DE IMITAÇÃO* Talvez um dos maiores equívocos da formação psicanalítica seja acreditar que aprender a atender significa reproduzir aquilo que grandes analistas fizeram. Conhecemos suas teorias, repetimos seus conceitos e, frequentemente, transformamos suas intervenções em modelos de conduta. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre compreender um gesto clínico e simplesmente imitá-lo. Em Como Lacan atendia de fato, Luis Felipe Moura e Eu pesquisamos testemunhos de analisandos para mostrar que a prática de Lacan não cabia em um conjunto de procedimentos previamente estabelecidos. A questão aparece de maneira particularmente interessante quando pensamos nas sessões de duração variável. Nós observamos: “Um relógio rápido pode apenas apressar. Um silêncio longo pode apenas deixar alguém sozinho” (p. 181). A afirmação nos obriga a reconhecer que nenhum recurso possui valor terapêutico independentemente de seu contexto. Uma interrupção pode produzir elaboração ou abandono; uma interpretação pode abrir associações ou interromper prematuramente o pensamento. O que determina sua pertinência não é a aparência sofisticada da intervenção, mas aquilo que acontece na relação analítica. Nesse sentido, a clínica exige algo mais difícil do que o domínio conceitual: a capacidade de sustentar a incerteza sem transformá-la imediatamente em resposta. Os autores afirmam que “A liberdade técnica aumenta a responsabilidade do analista” (p. 182). Essa liberdade não autoriza arbitrariedades. Pelo contrário, exige reconhecer que nossas palavras, nossos silêncios e até nossos equívocos participam da experiência subjetiva daquele que nos procura. Lacan também errava, reconhecia falhas e, em determinadas circunstâncias, pedia desculpas. Minha leitura é que essa discussão ultrapassa a prática lacaniana e alcança um problema contemporâneo: a crescente procura por protocolos, respostas rápidas e técnicas supostamente universais para experiências profundamente singulares. Talvez estejamos confundindo segurança profissional com a necessidade de saber antecipadamente o que fazer. Entretanto, a escuta analítica começa justamente quando conseguimos suspender nossas certezas para reconhecer aquilo que ainda desconhecemos. Como lembramos , “Cada pessoa pede uma presença própria” (p. 184). Eis uma formulação que merece acompanhar nossas supervisões e atendimentos. Afinal, estamos verdadeiramente escutando quem está diante de nós ou apenas procurando uma oportunidade de aplicar aquilo que já sabemos?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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