Infância, trauma e constituição do sujeito

Para crescer, é preciso poder se separar

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 22:23

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*TEXTÃO DO DIA* *PARA CRESCER, É PRECISO PODER SE SEPARAR* Talvez um dos maiores equívocos dos adultos seja acreditar que a adolescência representa simplesmente o desejo de abandonar os pais. Em O adolescente e o Outro, Sonia Alberti apresenta uma formulação aparentemente paradoxal: “o sujeito adolescente precisa muito de seus pais” (p. 10). Justamente quando começa a questionar suas referências, desafiar autoridades e reivindicar autonomia, o adolescente necessita encontrar alguém de quem possa se separar. Afinal, ninguém consegue elaborar uma separação quando o outro já desapareceu. A adolescência, nessa perspectiva, ultrapassa as transformações biológicas da puberdade. Trata-se de uma travessia subjetiva, marcada pela necessidade de abandonar identificações infantis e reconhecer que aqueles que antes pareciam possuir todas as respostas também são atravessados pela falta. Alberti afirma que “O adolescente se experimenta como autor de um desejo” (p. 15). Entretanto, tornar-se desejante implica suportar uma descoberta desconcertante: os pais não são completos, não sabem tudo e tampouco poderão protegê-lo definitivamente das incertezas da existência. Essa questão ganha contornos particularmente complexos na contemporaneidade. Exigimos autonomia dos jovens enquanto frequentemente tentamos determinar seus caminhos, suas escolhas profissionais e até suas formas de sofrimento. Queremos que amadureçam, mas temos dificuldade em aceitar que amadurecer também significa discordar de nós. Minha leitura é que parte dos conflitos entre gerações nasce justamente dessa contradição: os adultos desejam a independência dos filhos, desde que ela não ameace suas próprias expectativas narcísicas. No material Psicanálise com adolescentes, de Rinalda Duarte, encontramos outra formulação importante: “O bem dizer” é a invenção na análise de modos possíveis de dizer o indizível do sofrimento (p. 3). A escuta psicanalítica não pretende escolher pelo adolescente, tampouco transformar toda manifestação de oposição em patologia. Trata-se de oferecer condições para que ele possa construir uma narrativa própria, simbolizar suas perdas e encontrar palavras para aquilo que frequentemente aparece como angústia, silêncio ou atuação. Talvez nossa tarefa, enquanto analistas, pais ou educadores, seja compreender que sustentar uma presença não significa impedir a partida. A separação não exige necessariamente o rompimento dos vínculos, mas sua transformação. Porque crescer não é deixar de ter uma história com os outros, mas conquistar o direito de escrever algo próprio a partir dela.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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