Quando o outro não encontra lugar
*TEXTÃO DO DIA*
*QUANDO O OUTRO NÃO ENCONTRA LUGAR*
Nem sempre estar diante de alguém significa estabelecer um encontro. Podemos olhar sem reconhecer, ouvir sem atribuir sentido e compartilhar um espaço sem experimentar uma relação. No artigo *Os impasses na subjetivação-construção do corpo no autismo*, Silvana Rabello nos convida a pensar uma questão fundamental: como o corpo biológico se torna também um corpo investido de afetos, significações e experiências subjetivas? A autora afirma que *“Pensar a subjetividade para além dos sinais de normalidade ou adequação, a partir da ética do singular, é um dos legados freudianos”* (p. 10).
Para Rabello, inspirada em Freud, Lacan e Marie-Christine Laznik, a constituição do corpo erógeno envolve uma complexa circulação de investimentos pulsionais entre o bebê e seu ambiente. Não basta a maturação orgânica; importa também o modo como as experiências corporais adquirem significação nas relações. A autora observa: *“Não é suficiente que a criança olhe. É preciso que se faça olhar”* (p. 11). Trata-se de uma formulação teórica sobre a reciprocidade do investimento libidinal, não de um critério universal para avaliar crianças autistas.
Essa discussão encontra uma importante continuidade no debate *O que quer dizer autismo hoje em dia?*, especialmente nas contribuições de Alfredo Jerusalinsky e Rogério Lerner. Enquanto Jerusalinsky enfatiza a singularidade dos caminhos de constituição subjetiva e a necessidade de não impor formas artificiais de relação, Lerner destaca a importância da identificação precoce de dificuldades no desenvolvimento e do cuidado com as famílias. Perspectivas distintas que nos permitem interrogar uma questão clínica essencial: como oferecer intervenções sem transformar a criança em objeto de nossas expectativas?
Minha leitura é que o desafio contemporâneo está justamente na tensão entre reconhecer diferenças e procurar corrigi-las. A urgência por respostas diagnósticas pode nos fazer esquecer que nenhum sujeito se reduz àquilo que conseguimos observar. Acolher a singularidade também significa reconhecer as necessidades concretas de desenvolvimento, comunicação e apoio, sem atribuir automaticamente às relações familiares a origem do autismo.
Talvez a clínica comece quando nossa necessidade de compreender deixa espaço para aquilo que o outro pode nos ensinar. Como escreve Rabello, *“Pensar o autismo, então, é arriscar-se em terra estrangeira”* (p. 10). Afinal, *estamos dispostos a conhecer o mundo do outro ou apenas interessados em fazê-lo habitar o nosso?*
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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