Infância, trauma e constituição do sujeito

“Pode-se ter saudades dos tempos bons, mas não se deve fugir ao presente.”

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:34

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🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* “Pode-se ter saudades dos tempos bons, mas não se deve fugir ao presente.” Michel de Montaigne É reconfortante imaginar que nossa verdade ficou guardada em algum lugar do passado: na família que tivemos, no amor que perdemos, numa época em que tudo parecia mais inteiro. A lembrança aquece, mas também pode nos retirar silenciosamente da vida que continua acontecendo. Michele Roman Faria mostra que a família participa decisivamente da constituição do sujeito, mas não como um roteiro fechado. Ao reler o complexo de Édipo de Freud com Lacan, ela desloca a questão da simples fotografia doméstica — pai, mãe e criança — para as funções simbólicas que organizam o desejo, a falta e os limites. Cada história familiar nos oferece nomes, lugares, proibições, fantasias e maneiras de desejar. Mas uma marca não é uma sentença. No vídeo, Jorge Forbes situa o começo de uma análise numa passagem fundamental: a pessoa deixa de narrar sua queixa apenas como algo exterior e começa a perguntar de que modo está implicada naquilo que a faz sofrer. É o que a psicanálise chama de retificação subjetiva. Isso não significa culpar alguém por sua dor. Significa reconhecer que, mesmo no sofrimento, pode existir uma repetição, uma escolha inconsciente ou até alguma forma enigmática de satisfação. Diferentemente do médico que imobiliza o osso quebrado, o analista não oferece uma solução externa para “consertar” a vida. Ele acompanha o sujeito na descoberta da posição que ocupa diante de sua própria história. É aí que a frase de Montaigne ganha força. Podemos visitar a infância, lamentar perdas e sentir saudades. Fugir ao presente, porém, é transformar o passado em residência permanente — e, às vezes, em álibi. Na análise, voltamos ao que aconteceu não para permanecer lá, nem para colocar eternamente a família no banco dos réus, mas para escutar como aquela história ainda fala em nossas escolhas atuais. Entre “isso me aconteceu” e “o que faço agora com isso?”, começa a aparecer um sujeito.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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