Amar quando tudo nos ensina a consumir
🧐📄 *Textão de hoje*
*Amar quando tudo nos ensina a consumir*
Vivemos numa época em que quase tudo parece poder ser substituído. Troca-se o celular, o emprego, a série, o restaurante e, não raramente, também os vínculos. Quando algo deixa de produzir satisfação imediata, surge rapidamente a pergunta: por que permanecer?
No capítulo “Discurso capitalista e amor”, Jorge Alemán nos oferece uma chave importante para pensar essa questão. Partindo de Lacan, ele lembra que o amor não resolve a impossibilidade existente entre dois sujeitos. Não há encaixe perfeito, complementaridade absoluta ou alguém destinado a preencher aquilo que nos falta. Ao contrário: “O amor é o encontro entre duas faltas que nunca podem se colmar.”
Talvez seja justamente isso que torne o amor tão difícil em nosso tempo.
O discurso capitalista funciona alimentando continuamente a promessa de que existe um objeto capaz de completar aquilo que falta. Compra-se algo, experimenta-se uma breve satisfação e logo reaparece outra falta, exigindo um novo objeto. Alemán observa que esse movimento alcança também os relacionamentos: o amor passa a ser submetido aos “dispositivos de rendimento”, à exigência de estar à altura, de não apresentar falhas, enquanto tudo deve tornar-se visível, mensurável e calculável.
Mas pessoas não funcionam como produtos.
O outro sempre guarda algo que escapa ao nosso controle. Há silêncios que não compreenderemos, desejos que não dominaremos, diferenças que nenhuma conversa eliminará completamente. Amar talvez comece justamente quando desistimos de transformar o outro na resposta para nossas faltas.
Não significa aceitar qualquer relação ou permanecer onde existe sofrimento destrutivo. Significa reconhecer que nenhum vínculo humano oferece a completude prometida pela fantasia.
Alemán escreve uma frase belíssima: “O casal é o desafio de suportar juntos algo que não pode ser resolvido.”
Talvez o amor sobreviva justamente aí: quando duas pessoas deixam de perguntar “o que você pode me oferecer?” e conseguem, por algum tempo, habitar juntas aquilo que nenhuma delas pode preencher.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
Falar comigo