Amor, vínculos, desejo e luto

Entre Dante e Lacan: o amor que se eleva… e o amor que falha

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 10:00

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *Entre Dante e Lacan: o amor que se eleva… e o amor que falha* Talvez uma das formas mais interessantes de compreender o amor seja colocá-lo em tensão. E é exatamente isso que Jean Allouch faz ao aproximar — e ao mesmo tempo separar — duas figuras fundamentais: Dante e Lacan. De um lado, temos o amor que se eleva, que encontra na mulher amada um caminho para o divino. De outro, o amor que não se resolve, que não se completa, que insiste justamente no seu limite. Em Dante, o amor tem uma direção clara. A amada não é apenas um outro — ela é uma passagem. Amar é subir, é purificar-se, é transformar o desejo em algo mais alto. Há uma espécie de promessa: o amor pode conduzir a um sentido, a uma realização, a uma verdade. O amor aponta para um além. Mas Lacan desmonta essa promessa. Para ele — e é isso que Allouch radicaliza — o amor não conduz a um “mais alto”. Ele não resolve a falta, não fecha a ferida, não leva a um encontro pleno. Ao contrário: o amor só existe porque há uma impossibilidade estrutural. Não há relação sexual. Não há encaixe perfeito. E, ainda assim, ama-se. É nesse ponto que a diferença se torna decisiva. Enquanto Dante sustenta um amor que sublima e organiza, Lacan nos coloca diante de um amor que desorganiza, que escapa, que falha — mas que, justamente por isso, é verdadeiro. Um amor que não se apoia em uma garantia transcendente, mas que se sustenta no vazio, na falta, naquilo que nunca se completa. E talvez aqui esteja o ponto mais radical. Amar, na perspectiva lacaniana, não é alcançar algo maior. É suportar que não há esse “maior”. Não é elevar o outro ao divino. É deixar o outro ser… sem capturá-lo. Não é encontrar sentido. É sustentar o laço mesmo sem garantia. Dante oferece um amor que salva. Lacan nos mostra um amor que não salva — mas que, ainda assim, insiste. E talvez seja justamente por isso que ele nos toca mais profundamente. Porque no fundo, o amor não é aquilo que resolve nossa falta. É aquilo que nos faz viver… apesar dela.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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