Entre Dante e Lacan: o amor que se eleva… e o amor que falha
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*Entre Dante e Lacan: o amor que se eleva… e o amor que falha*
Talvez uma das formas mais interessantes de compreender o amor seja colocá-lo em tensão. E é exatamente isso que Jean Allouch faz ao aproximar — e ao mesmo tempo separar — duas figuras fundamentais: Dante e Lacan. De um lado, temos o amor que se eleva, que encontra na mulher amada um caminho para o divino. De outro, o amor que não se resolve, que não se completa, que insiste justamente no seu limite.
Em Dante, o amor tem uma direção clara. A amada não é apenas um outro — ela é uma passagem. Amar é subir, é purificar-se, é transformar o desejo em algo mais alto. Há uma espécie de promessa: o amor pode conduzir a um sentido, a uma realização, a uma verdade. O amor aponta para um além.
Mas Lacan desmonta essa promessa.
Para ele — e é isso que Allouch radicaliza — o amor não conduz a um “mais alto”. Ele não resolve a falta, não fecha a ferida, não leva a um encontro pleno. Ao contrário: o amor só existe porque há uma impossibilidade estrutural. Não há relação sexual. Não há encaixe perfeito. E, ainda assim, ama-se.
É nesse ponto que a diferença se torna decisiva.
Enquanto Dante sustenta um amor que sublima e organiza, Lacan nos coloca diante de um amor que desorganiza, que escapa, que falha — mas que, justamente por isso, é verdadeiro. Um amor que não se apoia em uma garantia transcendente, mas que se sustenta no vazio, na falta, naquilo que nunca se completa.
E talvez aqui esteja o ponto mais radical.
Amar, na perspectiva lacaniana, não é alcançar algo maior.
É suportar que não há esse “maior”.
Não é elevar o outro ao divino.
É deixar o outro ser… sem capturá-lo.
Não é encontrar sentido.
É sustentar o laço mesmo sem garantia.
Dante oferece um amor que salva.
Lacan nos mostra um amor que não salva — mas que, ainda assim, insiste.
E talvez seja justamente por isso que ele nos toca mais profundamente.
Porque no fundo, o amor não é aquilo que resolve nossa falta.
É aquilo que nos faz viver… apesar dela.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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