O pai que morre antes de ser morto
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*O pai que morre antes de ser morto*
Em Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski não escreve apenas sobre um assassinato. Escreve sobre aquilo que pode preceder um crime durante anos: abandono, rivalidade, humilhação, ressentimento e desejos que ninguém ousa reconhecer como seus.
Fiódor Pávlovitch é um pai que biologicamente gera filhos, mas falha repetidamente em ocupar um lugar de cuidado. Mítia é praticamente esquecido; mais tarde, Ivã e Aliócha também conhecem o abandono paterno. Antes que alguém levante a mão contra o pai, portanto, existe uma história em que o vínculo já foi ferido. O romance parece perguntar: quantas mortes simbólicas podem acontecer dentro de uma família antes que a tragédia adquira um corpo?
É aqui que a leitura psicanalítica se torna especialmente inquietante. O parricídio não precisa começar no gesto que mata. Pode aparecer na fantasia, no desejo de desaparecimento do outro, na indiferença ou naquela frase silenciosa: seria melhor se ele não estivesse aqui. O estudo anexado toma justamente o parricídio, a partir de Freud, como um dos eixos para pensar Os Irmãos Karamázov.
Smerdiákov mata Fiódor, mas sua conversa com Ivã desfaz qualquer conforto moral. Ele insiste que Ivã também estava implicado e chega a afirmar: “o principal, o único assassino foi o senhor”. A acusação é terrível porque desloca a pergunta de “quem fez?” para “quem desejou, consentiu, silenciou ou tornou possível?”
Talvez seja essa uma das grandes provocações de Dostoiévski à clínica: nem sempre somos responsáveis pelo que acontece, mas isso não significa que sejamos completamente estrangeiros aos nossos próprios desejos.
A psicanálise não transforma fantasia em crime. Ao contrário: cria um lugar onde aquilo que não pode ser confessado socialmente possa ser pensado, nomeado e elaborado.
Porque o perigo não está em descobrir que podemos amar e odiar a mesma pessoa.
O perigo talvez esteja em precisar acreditar que somos feitos apenas de amor. <Mensagem editada>
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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