Dostoiévski, Freud e a ferida do humano
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*Dostoiévski, Freud e a ferida do humano*
Ao ler Os Irmãos Karamázov, compreendemos por que Dostoiévski exerceu tamanho impacto sobre Freud. Em 1928, no ensaio “Dostoiévski e o Parricídio”, Freud afirmaria que Os Irmãos Karamázov é “o mais grandioso romance jamais escrito” e tomaria o assassinato do pai como expressão literária exemplar do conflito edípico.
Mas talvez a influência de Dostoiévski sobre Freud vá além do parricídio. Ela toca uma questão mais radical: o que sustenta o laço humano?
Na aula de Flávio Vassoler, aparece um Dostoiévski preocupado não apenas com a história política, mas com as condições morais da convivência. Seus personagens vivem em permanente tensão entre egoísmo e alteridade, entre a afirmação de si e a responsabilidade pelo outro. Em Os Irmãos Karamázov, Ivan formula a revolta contra Deus; Aliócha encarna a possibilidade do amor ao próximo; Dmitri oscila entre culpa e desejo. Nenhuma voz elimina a outra. A verdade surge justamente da coexistência conflitiva dessas vozes.
Freud reconheceu algo semelhante em sua clínica. O sujeito não é uno, mas atravessado por forças contraditórias. Em O Eu e o Id (1923), mostrará que o eu não é senhor em sua própria casa, dividido entre exigências pulsionais, ideais morais e realidade.
Se Dostoiévski perguntava como o homem pode amar o próximo apesar de sua tendência ao egoísmo, Freud formulará a mesma questão em termos metapsicológicos. Em O Mal-Estar na Civilização (1930), ele observa que o mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo” é uma das maiores exigências feitas ao ser humano, justamente porque contraria sua disposição narcísica e agressiva.
Talvez aí resida a profunda afinidade entre ambos: nenhum deles acreditou numa harmonia espontânea do humano. Ambos enxergaram a agressividade, o egoísmo e a destrutividade. Mas também perceberam que é precisamente no reconhecimento dessa divisão que se abre a possibilidade da responsabilidade.
Dostoiévski fez dessa verdade literatura. Freud, teoria do inconsciente.
E ambos continuam nos lembrando que a pergunta decisiva não é apenas quem somos, mas o que fazemos com aquilo que descobrimos sobre nós mesmos.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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