O nome, o pertencimento e os rios que nos habitam
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O nome, o pertencimento e os rios que nos habitam
Rubem Alves conta que, em uma tribo africana, o recém-nascido era o primeiro a ouvir o próprio nome. Antes que o mundo lhe dissesse quem ele deveria ser, alguém lhe sussurrava quem ele era. Há algo profundamente humano nessa cena. Talvez porque nenhum de nós nasça apenas de um corpo. Nascemos também de palavras, de histórias, de olhares e dos nomes que recebemos.
A psicanálise nos ensina que o sujeito não nasce pronto. Somos introduzidos na linguagem antes mesmo de compreendê-la. Nosso nome é um dos primeiros significantes que nos acolhem. É por ele que somos chamados, reconhecidos, desejados e, muitas vezes, também marcados pelas expectativas daqueles que vieram antes de nós.
Mas pertencer nunca foi apenas ocupar um lugar. Pertencer é sentir que existe um espaço no mundo onde nossa existência faz sentido. E talvez seja por isso que tantos sofrimentos contemporâneos estejam ligados a experiências de desenraizamento, exclusão e solidão. Há pessoas cercadas de gente e, ainda assim, sem pertencimento. Como barcos à deriva procurando um porto que nunca encontram.
No belo texto Com Olho de Peixe, Rubem Alves sugere que a eternidade mora nas profundezas do tempo. Na superfície, tudo passa. As crianças crescem, os adultos envelhecem, os vínculos mudam. Mas, no fundo das águas, permanece aquilo que foi verdadeiramente amado. Talvez o pertencimento more justamente nesse lugar profundo. Não no reconhecimento superficial das redes sociais, dos títulos ou das funções que exercemos, mas na experiência de ter sido visto, escutado e acolhido por alguém.
Todos nós carregamos dentro de nós os nomes que recebemos, os lugares onde fomos amados e também aqueles onde nos sentimos estrangeiros. A clínica nos mostra que, muitas vezes, o sofrimento é a busca por um lugar onde o sujeito possa finalmente habitar a própria história sem precisar pedir desculpas por existir.
Talvez crescer seja isso: descobrir que pertencimento não é encontrar um lugar perfeito. É construir, ao longo da vida, uma morada simbólica onde possamos dizer nosso próprio nome e reconhecê-lo como nosso.
E, quem sabe, ouvir novamente, no fundo das águas do tempo, aquele primeiro chamado que nos trouxe ao mundo.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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