Entre a ternura e a paixão
🧐📖 **Textão do dia**
**Entre a ternura e a paixão**
Há uma pergunta que atravessa séculos e continua sem resposta definitiva: por que amamos quem amamos?
Desde o mito contado por Aristófanes em *O Banquete* de Platão até as reflexões de Freud sobre o amor, existe uma tentativa permanente de compreender essa força estranha que nos arranca de nós mesmos e nos lança em direção ao outro. Daniel Kupermann nos lembra que falar de amor é também falar de desejo, de falta, de narcisismo, de ternura e de alteridade.
A psicanálise talvez tenha produzido uma das descobertas mais desconfortáveis sobre o amor: nem sempre amamos apenas o outro. Muitas vezes amamos aquilo que ele representa para nós. Amamos uma promessa, uma imagem, uma fantasia, uma parte perdida de nós mesmos que acreditamos reencontrar naquele encontro. Por isso o amor pode ser tão sublime quanto doloroso.
Freud observava que existem duas correntes fundamentais que atravessam a experiência amorosa: a ternura e a sensualidade. Quando conseguem caminhar juntas, o amor encontra alguma estabilidade. Quando se separam, surgem muitos dos impasses afetivos que encontramos na clínica e na vida. Há quem deseje sem conseguir amar. Há quem ame sem conseguir desejar. E há quem passe a vida tentando reconciliar essas duas linguagens.
Talvez o amor maduro não seja aquele que elimina a falta, mas aquele que aprende a conviver com ela. Não se trata de encontrar alguém que complete nossas incompletudes, mas alguém com quem possamos compartilhar nossas imperfeições.
Vivemos, porém, numa época que vende a ilusão do amor sem conflito, sem espera, sem frustração e sem alteridade. Procuramos relações que funcionem como aplicativos: rápidas, intuitivas e descartáveis. No entanto, o amor verdadeiro continua pertencendo ao campo da experiência humana e não ao da eficiência.
Amar é aceitar que o outro não foi criado para satisfazer nossos desejos. É reconhecer sua diferença sem tentar apagá-la. É suportar que ele permaneça um mistério, mesmo depois de muitos anos.
Talvez seja justamente aí que o amor se distingue da paixão. A paixão deseja possuir. O amor aprende a contemplar. A paixão quer certezas. O amor suporta perguntas. A paixão procura espelhos. O amor descobre pessoas.
E talvez a maior prova de amor não seja encontrar alguém que nos complete, mas alguém diante de quem possamos continuar nos tornando quem somos.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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