Amor, vínculos, desejo e luto

O amor e o impossível

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:55

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do dia* *O amor e o impossível* Talvez uma das ilusões mais persistentes do nosso tempo seja acreditar que o amor surgiu para preencher vazios. Crescemos ouvindo que existe alguém capaz de nos completar, restaurar aquilo que sentimos ter perdido e finalmente nos conduzir a uma felicidade sem fissuras. Mas quanto mais observamos a experiência humana, mais percebemos que o amor não nasce da completude. Ele nasce justamente da falta. Freud dizia que somos marcados por uma condição de dependência desde o nascimento. Chegamos ao mundo atravessados pelo desamparo e, de alguma forma, passamos a vida inteira tentando construir formas de amparo. Talvez por isso o amor exerça tamanho fascínio. Não porque elimine a solidão, mas porque nos permite compartilhá-la. A cultura contemporânea, porém, frequentemente transforma o amor em uma promessa de satisfação permanente. O amor romântico passa a funcionar como um ideal impossível contra o qual todas as relações reais acabam sendo comparadas. E como todo ideal excessivamente elevado, ele produz frustração. Não porque amemos pouco, mas porque esperamos do amor aquilo que ele jamais prometeu entregar. Existe ainda outra armadilha. Aprendemos a falar sobre amar o outro, mas raramente refletimos sobre quem é esse “eu” que ama. A psicanálise nos lembra que não somos inteiramente transparentes para nós mesmos. Há em cada sujeito desejos contraditórios, feridas antigas, expectativas inconscientes e repetições que atravessam os vínculos. Talvez por isso toda relação amorosa carregue algo de transferencial. Não encontramos apenas o outro. Encontramos também versões esquecidas de nós mesmos. Amar, então, talvez não seja encontrar a metade perdida de uma laranja, como sugerem algumas narrativas antigas. Talvez seja algo mais humilde e, justamente por isso, mais humano. Amar é reconhecer que somos seres incompletos e, ainda assim, aceitar caminhar ao lado de outra incompletude. No fim das contas, não sofremos apenas porque amamos. Sofremos porque desejamos que o amor nos devolva uma inteireza que nunca possuímos. E talvez a maturidade amorosa comece exatamente quando abandonamos essa busca impossível e descobrimos que o amor não existe para apagar a falta, mas para torná-la mais habitável.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Sigmund Freud