O humano não cabe em fórmulas
🧐📄 *O humano não cabe em fórmulas*
Vivemos numa época curiosa. Quanto mais acumulamos informações, mais cresce a tentação de acreditar que tudo pode ser explicado, previsto e controlado. Como se a vida pudesse ser reduzida a gráficos, estatísticas, diagnósticos ou algoritmos. Talvez por isso Edgar Morin tenha insistido tanto na necessidade de um pensamento complexo.
Complexo não significa complicado.
A palavra vem de complexus, aquilo que é tecido em conjunto. E talvez seja justamente isso que frequentemente esquecemos quando tentamos compreender o sofrimento humano. O sujeito não é apenas biologia. Não é apenas cultura. Não é apenas história. Não é apenas inconsciente. Somos o entrelaçamento de tudo isso.
Freud já havia produzido uma ferida narcísica ao mostrar que não somos senhores em nossa própria casa. Existe algo em nós que pensa antes de nós. Algo que escapa ao controle da consciência. Morin, por sua vez, amplia essa reflexão ao mostrar que também somos atravessados por paradigmas, crenças, narrativas e formas de enxergar o mundo que operam silenciosamente em nossa maneira de sentir, pensar e agir.
Talvez uma das maiores ilusões da modernidade tenha sido imaginar que a ordem absoluta seria possível. Mas a vida insiste em nos lembrar do contrário. Há acaso. Há contradição. Há desordem. Há encontros inesperados. Há perdas. Há transformações.
A própria existência parece funcionar numa dança permanente entre estabilidade e mudança.
A psicanálise conhece bem esse território. Afinal, o sofrimento raramente surge porque algo está desorganizado demais. Muitas vezes ele aparece justamente quando tentamos controlar excessivamente aquilo que, por natureza, é vivo, móvel e imprevisível.
Morin nos convida a abandonar os sistemas fechados. A restabelecer articulações entre aquilo que foi separado. A pensar sem encerrar os conceitos. A reconhecer que a realidade é maior do que nossas explicações sobre ela.
Talvez amadurecer seja exatamente isso: suportar a complexidade sem a necessidade imediata de simplificá-la.
Porque a vida não é um problema a ser resolvido.
É uma experiência a ser atravessada.
E talvez seja justamente nessa travessia, entre a ordem e o caos, entre a certeza e a dúvida, entre o consciente e o inconsciente, que o humano acontece.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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