Subjetividade contemporânea

O vazio que nenhuma conquista preenche

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:49

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🧐📄 *Textão do dia* *O vazio que nenhuma conquista preenche* Há sofrimentos que não nascem da falta de algo específico. Não se resolvem com dinheiro, amor, reconhecimento, trabalho ou sucesso. O sujeito imagina que, quando alcançar determinado objetivo, finalmente encontrará paz. Conquista aquilo que desejava e, pouco tempo depois, descobre que o vazio continua lá. Foi justamente esse tipo de sofrimento que chamou a atenção de autores como Otto Kernberg e André Green ao estudarem os chamados pacientes borderline. Kernberg observou que muitas dessas pessoas vivem relações marcadas por extremos. Alguém é maravilhoso hoje e insuportável amanhã. O amor transforma-se rapidamente em ódio. A admiração converte-se em desprezo. Não porque o outro tenha mudado tanto, mas porque existe uma dificuldade profunda de integrar aspectos contraditórios da realidade. Como se o psiquismo precisasse dividir o mundo entre totalmente bom ou totalmente mau para suportar a angústia. André Green foi ainda mais longe. Para ele, muitas vezes o sofrimento não está apenas nos conflitos, mas em algo mais silencioso: uma sensação de vazio interior, uma espécie de desertificação afetiva. O sujeito sente que existe, mas não se sente verdadeiramente vivo. Está cercado de pessoas e, ainda assim, experimenta uma solidão difícil de nomear. Trabalha, produz, consome, relaciona-se, mas frequentemente tudo parece perder significado. Talvez seja por isso que nossa época tenha tanta dificuldade em lidar com o tédio. A sociedade oferece distrações infinitas, mas poucas oportunidades de encontro consigo mesmo. Compramos experiências, acumulamos imagens, colecionamos estímulos e seguimos esperando que alguma coisa finalmente nos complete. Mas o problema é que o vazio humano não se preenche como quem enche um recipiente. A psicanálise sugere algo diferente. Não se trata de eliminar toda falta, mas de construir uma relação menos desesperada com ela. A vida não começa quando desaparece o vazio. Ela começa quando deixamos de fugir dele o tempo inteiro. Talvez uma das grandes tragédias contemporâneas seja acreditar que o sofrimento é sinal de fracasso. E talvez uma das maiores descobertas da clínica seja perceber que aquilo que mais tentamos evitar pode ser justamente o caminho para nos encontrarmos. Porque nem sempre o que dói pede preenchimento. Às vezes pede escuta.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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