Subjetividade contemporânea

Quando viver se torna desempenho

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:53

2 min de leitura
🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* *Quando viver se torna desempenho* “Quanto mais o indivíduo é socialmente cambiante, mais surgem manifestações de esgotamento e ‘panes’ subjetivas.” Gilles Lipovetsky Talvez essa frase de Lipovetsky diga muito sobre aquilo que chega hoje à clínica. Em Os tempos hipermodernos, o indivíduo aparece cada vez mais livre dos antigos enquadramentos coletivos, mais autônomo para escolher seus caminhos e, ao mesmo tempo, mais responsável por organizar sozinho a própria existência. O problema é que essa liberdade não produz apenas leveza. Ela também pode produzir instabilidade, insegurança e fragilidade. A vida passa a exigir uma administração permanente. É preciso trabalhar, cuidar do corpo, construir relações, planejar o futuro, aproveitar o presente, manter-se saudável, adaptar-se, reinventar-se. Lipovetsky fala de uma sociedade em que se generaliza uma “pressão temporal crescente” e na qual cada pessoa precisa lidar com diferentes ritmos e exigências simultaneamente. Talvez seja por isso que tantas pessoas não chegam à clínica dizendo simplesmente que algo lhes foi proibido. Muitas chegam cansadas de precisar dar conta. O descanso precisa ser produtivo. O corpo precisa melhorar. O trabalho precisa avançar. As relações precisam funcionar. Até o prazer parece precisar justificar seu lugar. Lipovetsky percebe justamente essa convivência paradoxal entre sensualismo e desempenho. A mesma sociedade que celebra o bem-estar, o prazer e a qualidade de vida intensifica os ritmos, as cobranças e a necessidade de superação. E é nesse cenário que aparecem ansiedade, depressão, desorganização e sentimento de insuficiência. Talvez a escuta clínica precise prestar atenção não apenas ao que falta ao sujeito, mas também àquilo que lhe é excessivamente exigido. Porque alguém pode ter muitas escolhas e ainda assim sentir-se aprisionado pela obrigação de escolher bem. Pode ter liberdade e viver com medo de desperdiçá-la. E talvez uma pergunta importante seja: quando foi que viver deixou de ser experiência e passou a parecer uma prova permanente de desempenho?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Gilles Lipovetsky