Quando viver se torna desempenho
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*Quando viver se torna desempenho*
“Quanto mais o indivíduo é socialmente cambiante, mais surgem manifestações de esgotamento e ‘panes’ subjetivas.” Gilles Lipovetsky
Talvez essa frase de Lipovetsky diga muito sobre aquilo que chega hoje à clínica.
Em Os tempos hipermodernos, o indivíduo aparece cada vez mais livre dos antigos enquadramentos coletivos, mais autônomo para escolher seus caminhos e, ao mesmo tempo, mais responsável por organizar sozinho a própria existência. O problema é que essa liberdade não produz apenas leveza. Ela também pode produzir instabilidade, insegurança e fragilidade.
A vida passa a exigir uma administração permanente.
É preciso trabalhar, cuidar do corpo, construir relações, planejar o futuro, aproveitar o presente, manter-se saudável, adaptar-se, reinventar-se. Lipovetsky fala de uma sociedade em que se generaliza uma “pressão temporal crescente” e na qual cada pessoa precisa lidar com diferentes ritmos e exigências simultaneamente.
Talvez seja por isso que tantas pessoas não chegam à clínica dizendo simplesmente que algo lhes foi proibido. Muitas chegam cansadas de precisar dar conta.
O descanso precisa ser produtivo.
O corpo precisa melhorar.
O trabalho precisa avançar.
As relações precisam funcionar.
Até o prazer parece precisar justificar seu lugar.
Lipovetsky percebe justamente essa convivência paradoxal entre sensualismo e desempenho. A mesma sociedade que celebra o bem-estar, o prazer e a qualidade de vida intensifica os ritmos, as cobranças e a necessidade de superação. E é nesse cenário que aparecem ansiedade, depressão, desorganização e sentimento de insuficiência.
Talvez a escuta clínica precise prestar atenção não apenas ao que falta ao sujeito, mas também àquilo que lhe é excessivamente exigido.
Porque alguém pode ter muitas escolhas e ainda assim sentir-se aprisionado pela obrigação de escolher bem.
Pode ter liberdade e viver com medo de desperdiçá-la.
E talvez uma pergunta importante seja:
quando foi que viver deixou de ser experiência e passou a parecer uma prova permanente de desempenho?
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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