Infância, trauma e constituição do sujeito

O corpo também guarda palavras

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 20:57

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🧐📄 *Textão do dia* *O corpo também guarda palavras* Uma criança pode não saber dizer o que viveu e, ainda assim, carregar essa história no corpo. Antes da fala, já existem marcas. O modo como foi esperada, olhada, tocada, cuidada e nomeada. Antes de poder dizer “eu”, a criança já foi dita por alguém. Na palestra O corpo marcado simbolicamente por suas histórias, Malka Birkman Toledano afirma que “a gestação do corpo pode durar semanas; a gestação de um sujeito se inicia quando sonhamos com ele”. Um bebê já chega cercado de expectativas, fantasias, desejos e interpretações. Depois, esse movimento continua. O bebê chora e alguém tenta compreender. Se movimenta e alguém atribui sentido. Sorri e alguém responde. Pouco a pouco, o corpo vai sendo inscrito em uma rede de significados. Talvez por isso seja tão importante a afirmação: “falamos, nos tornamos falantes desde onde fomos falados”. A linguagem não começa apenas quando surge a primeira palavra. Ela começa antes, na relação com aqueles que oferecem sentido ao que ainda não pode ser nomeado. Mas o que acontece quando esse percurso é atravessado por rupturas? Hospitalizações, cirurgias, separações e experiências precoces podem produzir uma distância entre aquilo que o corpo viveu e aquilo que pôde ser simbolizado. O acontecimento existiu, mas talvez ainda não exista uma narrativa capaz de acolhê-lo. Por isso, um sintoma de linguagem não precisa ser escutado apenas como falha. Talvez seja necessário perguntar: o que aconteceu com essa criança antes que ela pudesse contar o que aconteceu consigo? A palestra propõe pensar a patologia também como uma tentativa de produzir ligação onde houve ruptura. E então a clínica muda de posição. Em vez de perguntar apenas o que falta à criança, começa a escutar aquilo que o sintoma tenta sustentar. Porque falar não é apenas produzir sons. “Falar é agir, é fazer do desejo ato.” Talvez nosso trabalho seja justamente esse: ajudar aquilo que ficou marcado no corpo a encontrar um lugar possível na palavra.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Malka Birkman Toledano