O corpo também guarda palavras
🧐📄 *Textão do dia*
*O corpo também guarda palavras*
Uma criança pode não saber dizer o que viveu e, ainda assim, carregar essa história no corpo.
Antes da fala, já existem marcas. O modo como foi esperada, olhada, tocada, cuidada e nomeada. Antes de poder dizer “eu”, a criança já foi dita por alguém.
Na palestra O corpo marcado simbolicamente por suas histórias, Malka Birkman Toledano afirma que “a gestação do corpo pode durar semanas; a gestação de um sujeito se inicia quando sonhamos com ele”.
Um bebê já chega cercado de expectativas, fantasias, desejos e interpretações.
Depois, esse movimento continua.
O bebê chora e alguém tenta compreender. Se movimenta e alguém atribui sentido. Sorri e alguém responde. Pouco a pouco, o corpo vai sendo inscrito em uma rede de significados.
Talvez por isso seja tão importante a afirmação: “falamos, nos tornamos falantes desde onde fomos falados”.
A linguagem não começa apenas quando surge a primeira palavra. Ela começa antes, na relação com aqueles que oferecem sentido ao que ainda não pode ser nomeado.
Mas o que acontece quando esse percurso é atravessado por rupturas?
Hospitalizações, cirurgias, separações e experiências precoces podem produzir uma distância entre aquilo que o corpo viveu e aquilo que pôde ser simbolizado.
O acontecimento existiu, mas talvez ainda não exista uma narrativa capaz de acolhê-lo.
Por isso, um sintoma de linguagem não precisa ser escutado apenas como falha.
Talvez seja necessário perguntar:
o que aconteceu com essa criança antes que ela pudesse contar o que aconteceu consigo?
A palestra propõe pensar a patologia também como uma tentativa de produzir ligação onde houve ruptura.
E então a clínica muda de posição.
Em vez de perguntar apenas o que falta à criança, começa a escutar aquilo que o sintoma tenta sustentar.
Porque falar não é apenas produzir sons.
“Falar é agir, é fazer do desejo ato.”
Talvez nosso trabalho seja justamente esse: ajudar aquilo que ficou marcado no corpo a encontrar um lugar possível na palavra.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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