Infância, trauma e constituição do sujeito

A mãe estava ali, mas algo nela havia desaparecido

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 22:15

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🧐📄 *TEXTÃO DO DIA* *A mãe estava ali, mas algo nela havia desaparecido* Há perdas que acontecem sem que ninguém vá embora. É justamente esse paradoxo que André Green tenta nomear com a expressão “mãe morta”. Não se trata, necessariamente, de uma mãe que morreu, mas de uma mãe que permanece fisicamente presente e que, após uma depressão, um luto ou uma ferida narcísica, torna-se psiquicamente indisponível. Para Green, o ponto decisivo é que essa transformação ocorre na presença do objeto: a criança continua diante da mãe, mas já não encontra nela a mesma vitalidade afetiva. Antes havia calor, interesse, troca. Subitamente, algo se apaga. E a criança não possui recursos para compreender o que aconteceu. Green mostra que o trauma não produz apenas uma perda de amor, mas também uma “perda de sentido”. A criança tende a interpretar a retirada materna a partir de si mesma: alguma coisa em mim fez o amor desaparecer. Diante dessa experiência, surge uma defesa radical. O sujeito desinveste afetivamente da mãe e, ao mesmo tempo, identifica-se inconscientemente com ela. É como se dissesse: se não posso reencontrar aquilo que perdi, torno-me aquilo que perdi. A mãe ausente passa então a existir dentro do próprio sujeito sob a forma de vazio, frieza ou impossibilidade de entrega. Curiosamente, essa criança pode desenvolver intensamente o pensamento, a imaginação e certas capacidades intelectuais. Pensar torna-se uma maneira de sobreviver ao enigma do desaparecimento afetivo. Mas Green observa que justamente onde o amor deveria circular pode permanecer uma região congelada. Daí sua expressão tão precisa: “amor gelado”. O adulto pode trabalhar, produzir, desejar, estabelecer relações e até possuir intensa vida sexual; ainda assim, alguma coisa permanece indisponível para o encontro. O objeto muda, mas o investimento continua secretamente hipotecado à mãe morta. Talvez, na clínica, algumas pessoas não estejam apenas procurando alguém que as ame. Estejam tentando descobrir se, desta vez, o amor continuará vivo depois que elas se aproximarem.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

André Green