Quando pertencer exige deixar de ser
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*Quando pertencer exige deixar de ser*
Talvez uma das ideias mais perturbadoras de O grupo e o mal, de Contardo Calligaris, seja justamente aquela que nos impede de manter o mal confortavelmente do lado de fora. Não basta imaginá-lo como atributo de sujeitos monstruosos, perversos ou radicalmente diferentes de nós. Calligaris recupera uma frase ouvida de seu pai: “o mal está ao alcance de todo mundo” e acrescenta: “O monstro não é forçosamente patológico.”
Isso muda a pergunta. Em vez de “quem são os maus?”, talvez precisemos perguntar: em que condições pessoas comuns podem abandonar aquilo que sustentava sua singularidade?
Calligaris encontra uma pista naquilo que chama de “paixão de ser instrumento”. Há momentos em que pertencer parece mais importante do que desejar. O sujeito deixa de perguntar o que penso?, o que quero?, até onde posso ir? e passa a perguntar apenas qual é a minha função aqui?.
O grupo, então, pode oferecer algo extremamente sedutor: alívio. Alívio da dúvida, da solidão, da responsabilidade de escolher. Quando uma única lógica começa a organizar todos, a diversidade dos ideais que compõem nossa singularidade corre o risco de ser substituída por uma montagem comum na qual cada um simplesmente desempenha sua função.
E talvez seja aí que a reflexão se torne assustadoramente contemporânea. O problema não começa necessariamente quando alguém deseja fazer o mal. Pode começar quando já não importa saber se aquilo que fazemos corresponde aos nossos próprios ideais.
Calligaris formula isso de maneira precisa: chega um momento em que o essencial passa a ser “representar bem o seu papel”.
Talvez a ética comece justamente no movimento contrário: conservar dentro de nós alguma coisa que ainda seja capaz de interromper o roteiro.
Porque há grupos que nos acolhem.
E há grupos que, para nos acolher, primeiro precisam nos transformar em instrumentos.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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