Cultura, literatura e sociedade

O mal não é exceção: ele se organiza

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 08:18

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🧐📄 *Textão de Hoje* *O mal não é exceção: ele se organiza* Há um erro confortável — e perigosíssimo — que atravessa nosso imaginário moral: a crença de que o mal é obra de monstros, de sujeitos excepcionais, de indivíduos patologicamente desviantes. É justamente contra essa fantasia defensiva que Contardo Calligaris, em O grupo e o mal, dirige sua análise mais contundente. O que está em jogo não é a psicologia do carrasco isolado, mas a lógica coletiva que torna o mal executável, administrável e, sobretudo, moralmente suportável . Calligaris parte de uma constatação incômoda: os grandes crimes históricos não foram cometidos por sujeitos dominados pelo ódio ou pelo prazer sádico, mas por pessoas comuns, integradas socialmente, muitas vezes avessas à violência. O genocídio, longe de ser um excesso pulsional, foi uma operação racional, burocrática, organizada. O mal não emerge da transgressão da lei, mas da sua execução cega. Eis o paradoxo central: o sujeito não mata porque deseja, mas porque cumpre. Aqui surge um conceito decisivo do livro: a paixão pela instrumentalidade. O sujeito abdica do próprio desejo para funcionar como instrumento de um Outro — o Estado, a ideologia, o líder, o grupo. Ele não age em nome de si, mas em nome de uma causa supostamente superior. Essa renúncia não é vivida como perda, mas como alívio. Pensar, decidir, responder eticamente torna-se desnecessário. Basta obedecer. O mal, assim, não exige crueldade: exige desresponsabilização subjetiva. Essa lógica ajuda a compreender por que, nos regimes totalitários, o sadismo explícito era frequentemente condenado. O carrasco ideal não é o violento apaixonado, mas o funcionário eficiente. O gozo permitido não é o da agressão, mas o da adequação perfeita ao papel. O sujeito encontra satisfação em “funcionar bem”, em executar corretamente o script que lhe foi atribuído. O horror não decorre de um excesso pulsional, mas de uma dessexualização radical da ação. Calligaris distingue, com precisão clínica, a perversão sexual daquilo que ele chama de perversão social. Na perversão sexual, há cena, fantasia, erotização, conflito com a lei simbólica. Já na perversão social, o que se perde é justamente isso: a fantasia, o desejo, a mediação simbólica. O sujeito não transgride a lei — ele se confunde com ela. Não há tensão, não há culpa elaborável, não há drama. Apenas execução. Essa análise tem consequências diretas para a clínica e para a leitura do presente. O risco maior não está nos sujeitos violentos e ruidosos, mas na proliferação de discursos que exaltam eficiência, produtividade, ordem, pertencimento e obediência como valores absolutos. Sempre que o ideal do eu é substituído por um eu ideal inflado — aquele que se sente completo por servir a algo maior — abre-se o caminho para a suspensão do julgamento ético. O livro de Calligaris não é apenas um estudo sobre o nazismo ou os totalitarismos do século XX. Ele é um alerta permanente. O mal não começa no campo de extermínio; começa quando o sujeito aceita deixar de pensar, quando renuncia à própria divisão subjetiva em troca de pertencimento, quando troca o desejo pela função. Talvez a lição mais dura — e mais necessária — seja esta: o mal não é exterior a nós. Ele não exige ódio, nem monstruosidade. Exige apenas que alguém esteja disposto a funcionar sem perguntar “por quê?”. A tarefa ética, clínica e política que se impõe é justamente a inversa: sustentar o desejo, a dúvida, o conflito — mesmo quando isso nos afasta do conforto de pertencer. Porque, como Calligaris nos lembra de forma implacável, o verdadeiro antídoto contra o mal não é a pureza moral, mas a recusa em nos tornarmos instrumentos.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Contardo Calligaris