Cultura, literatura e sociedade

Liberdade, igualdade e fraternidade: o conflito que chega à clínica

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 11:09

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de hoje* *Liberdade, igualdade e fraternidade: o conflito que chega à clínica* No texto de Contardo Calligaris, o lema da Revolução Francesa aparece não como um ideal resolvido, mas como a formulação de um conflito que atravessa a modernidade — e, mais profundamente, atravessa o sujeito. Lido a partir da clínica psicanalítica, esse conflito deixa de ser apenas político ou moral e revela sua dimensão propriamente psíquica. Na clínica, encontramos diariamente essa tensão: o desejo de liberdade absoluta confrontado com a necessidade de laço; a busca por igualdade e reconhecimento esbarrando na exigência de singularidade; o anseio por fraternidade coexistindo com a recusa de qualquer limite imposto pelo outro. O sofrimento psíquico muitas vezes nasce exatamente aí — não porque o sujeito esteja “errado”, mas porque ele tenta escapar de uma contradição que é constitutiva. Calligaris aponta algo fundamental: não se trata de dois campos opostos — liberdade de um lado, igualdade e fraternidade de outro —, mas de um conflito interno que habita cada um de nós. Na clínica, isso se traduz no impasse entre o desejo e a lei, entre o gozo singular e as exigências do laço social. O analisando quer ser ele mesmo, mas não suporta o preço de sê-lo; quer pertencer, mas sem perder nada de sua autonomia . Quando esse conflito não pode ser simbolizado, ele retorna sob a forma de sintoma. O sujeito passa a viver a contradição como perseguição externa: o outro que limita, a sociedade que oprime, o mundo que não reconhece. Assim como no campo político, o que é estrutural passa a ser vivido como ataque. A clínica, então, não se ocupa de eliminar o conflito, mas de permitir que ele seja reconhecido como próprio. A psicanálise não promete conciliação entre liberdade, igualdade e fraternidade. Ela não oferece sínteses harmoniosas. Seu trabalho é outro: sustentar o mal-estar, dar lugar à divisão subjetiva, permitir que o sujeito deixe de exigir do mundo uma coerência que ele mesmo não possui. Tornar-se sujeito é aceitar que não há liberdade sem perda, nem laço sem limite. Nesse sentido, a clínica é um espaço privilegiado para aquilo que Calligaris sugere de modo tão preciso: reconhecer que as posições em disputa estão todas dentro de nós. Quando o sujeito consegue se apropriar dessa contradição — em vez de projetá-la — algo se desloca. O sintoma perde sua rigidez, o outro deixa de ser inimigo, e o conflito pode finalmente ser pensado, em vez de atuado. Talvez seja isso que a psicanálise, silenciosamente, ensina todos os dias: viver não é resolver o conflito, mas aprender a habitá-lo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Contardo Calligaris