Clínica e técnica psicanalítica

O cálculo neurótico do gozo

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:57

2 min de leitura
🧐📄 *Textão de Hoje* *O cálculo neurótico do gozo* Há um equívoco persistente quando falamos do sofrimento neurótico: tratá-lo apenas como algo que deveria desaparecer. Como se o sintoma fosse um excesso inútil, um erro a ser corrigido, um ruído a ser silenciado. O que Christian Dunker nos mostra em O cálculo neurótico do gozo é algo bem mais inquietante — e, ao mesmo tempo, mais verdadeiro para quem escuta clinicamente. O sintoma não é só dor. Ele é também valor. O neurótico sofre, mas sofre de um modo que não é aleatório. Há cálculo. Há economia. Há uma contabilidade silenciosa em jogo, na qual o sujeito tenta equilibrar perda e ganho, renúncia e satisfação, falta e excesso. O sintoma surge como uma solução paradoxal: ele limita a vida, empobrece o desejo, mas ao mesmo tempo organiza o gozo, dando-lhe uma forma possível de existir. É por isso que o sujeito não se desfaz do sintoma tão facilmente. Há ali um resto precioso. Um modo singular de gozar que não se deixa reduzir nem à lógica do prazer, nem à moral do bem-estar. O gozo, como nos lembra Dunker, não é simplesmente prazer: é satisfação insatisfatória, desprazer desejado, apego ao que faz sofrer. Nesse sentido, o sintoma funciona como uma obra precária, quase artesanal. Ele carrega marcas de esforço psíquico, de repetição, de tentativas falhadas de dar conta daquilo que não se inscreve plenamente na linguagem. Não se trata de algo que se “cura” no sentido médico, mas de algo que pode perder sua função, cair em desuso, deixar de ser necessário como suporte do gozo. O cálculo neurótico do gozo aparece justamente aí: quanto mais o sujeito tenta dominar, controlar, eliminar o sofrimento, mais ele insiste. Quanto mais se tenta cifrar o gozo, menor seu valor; quanto mais valor ele assume, menos ele se deixa simbolizar. É nesse impasse que a neurose se sustenta. A clínica, então, não pode se limitar a interpretar sentidos. É preciso escutar também as variações de intensidade, o peso, a força, o investimento afetivo que atravessa a fala. O sofrimento não é apenas uma narrativa — ele é também quantidade, excesso, repetição, insistência. Escutar o sintoma é escutar essa contabilidade impossível. É reconhecer que ali onde o sujeito sofre, algo se preserva. Algo insiste. Algo goza. E talvez o trabalho analítico comece justamente quando deixamos de perguntar apenas “o que isso significa?” para sustentar outra pergunta, bem mais desconfortável: O que, exatamente, se mantém vivo nesse sofrimento?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Christian Dunker