Clínica e técnica psicanalítica

Depressão na Psicanálise

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 14:29

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *Depressão na Psicanálise* A depressão, na perspectiva psicanalítica, não pode ser reduzida a um simples transtorno químico ou a um conjunto fixo de sintomas. Como aponta Christian Dunker, ela é também uma construção histórica e simbólica: “não sabemos se tem uma única personalidade ou se é uma fusão retrospectiva de perfis diferentes” . Ou seja, falar de depressão é falar de modos de sofrer que variam conforme a cultura, a linguagem e o tempo. Trata-se menos de uma doença estável e mais de uma forma de subjetivação. Na contemporaneidade, esse sofrimento aparece frequentemente ligado ao esgotamento psíquico. Segundo Luís Claudio Figueiredo, vivemos uma articulação entre apatia, vazio e fadiga, frequentemente mascarada por hiperatividade e defesas maníacas . A depressão, nesse sentido, não é apenas queda de energia, mas também um modo de defesa frente ao excesso — uma resposta do psiquismo diante de demandas que ultrapassam sua capacidade de simbolização. Já Maria Rita Kehl propõe uma leitura ainda mais radical: a depressão como sintoma social do nosso tempo. Para ela, o sujeito deprimido encarna uma recusa silenciosa ao imperativo contemporâneo de produtividade e felicidade, vivendo uma relação singular com o tempo — mais lenta, mais reflexiva, quase deslocada do mundo . Não por acaso, afirma que as depressões ocupam hoje o lugar que antes era da melancolia como expressão do mal-estar na civilização. Assim, a clínica psicanalítica não busca simplesmente “curar” a depressão, mas escutar o que ela diz. Em vez de eliminar o sintoma, trata-se de compreender sua função na economia psíquica do sujeito. A depressão pode ser lida como um ponto de ruptura, um silêncio, ou até uma forma de resistência — um modo, ainda que doloroso, de não se submeter completamente às exigências do Outro.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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