Cultura, literatura e sociedade

A Monstruosidade que Nos Constitui

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:18

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *A Monstruosidade que Nos Constitui* Há algo profundamente inquietante na ideia central que atravessa o pensamento de Žižek: talvez o verdadeiro escândalo não seja a existência de Deus — mas o fato de Deus ter se tornado humano. Não é difícil acreditar em um Deus distante, transcendente, organizador do mundo, aquele que observa, julga e garante sentido. O que realmente desestabiliza é outra coisa: a hipótese de que esse Deus abandona sua posição de garantia e se implica radicalmente na própria criação. Quando isso acontece, algo se rompe — não apenas na teologia, mas na própria estrutura do sujeito. A encarnação, nesse sentido, não é um consolo espiritual. Ela é uma perda. Se Deus se faz homem, não há mais um Outro absoluto que sustente o mundo. O que resta é o vazio — e com ele, a responsabilidade. Não há mais um sentido garantido “lá em cima”. Há apenas o sujeito, entregue à liberdade e ao peso de existir. É por isso que, como o texto sugere, preferimos versões mais confortáveis: um Deus que observa, uma força superior que guia, uma espiritualidade que suaviza. Mas essas versões funcionam como defesas. Elas evitam o encontro com aquilo que é, de fato, monstruoso: a queda do Outro, a ausência de garantia, a exposição do sujeito ao real. E aqui Žižek se aproxima radicalmente da psicanálise. Porque o que ele chama de “monstruosidade” não está fora — está no próprio sujeito. Não somos definidos apenas por nossas propriedades, qualidades ou identidades. Há em nós um vazio, uma fenda, algo irredutível que não se deixa capturar por nenhuma definição. É justamente esse vazio que nos constitui como sujeitos. Ser sujeito, portanto, não é ser completo — é ser atravessado por uma falta. Não é possuir uma essência estável — é sustentar uma divisão. E talvez seja isso que mais incomoda: não somos garantidos por nada, nem mesmo por Deus. No fundo, a verdadeira questão não é teológica — é clínica. 👉 O que você faz com esse vazio que te constitui?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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Autores citados

Slavoj Žižek