Cultura, literatura e sociedade

Quando o passado não nos deixa viver o presente

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 23:16

2 min de leitura
*TEXTÃO DO DIA* *QUANDO O PASSADO NÃO NOS DEIXA VIVER O PRESENTE* Talvez uma das experiências mais inquietantes da existência seja perceber que o tempo avança, mas nem sempre conseguimos avançar com ele. Há acontecimentos que permanecem vivos décadas depois, assim como futuros que parecem impossíveis de imaginar. Na conferência Pensamento experimental em tempos sombrios, realizada em outubro de 2026, Judith Butler retoma Hannah Arendt e Walter Benjamin para questionar nossa compreensão linear da história. Butler afirma: “O presente nunca permanece imóvel o suficiente para ser delimitado. Está sempre se tornando passado” Essa reflexão nos apresenta uma ideia provocadora: o passado não está necessariamente encerrado, assim como o futuro não representa uma consequência previsível daquilo que aconteceu. Butler observa que “O agora, o presente, não decorre de maneira previsível daquilo que o precede”. Ao aproximar Arendt de Benjamin, a filósofa investiga como determinadas rupturas interrompem a continuidade histórica e abrem possibilidades que antes sequer podiam ser imaginadas. O novo, portanto, não nasce simplesmente do desenvolvimento natural do antigo. Minha leitura é que essa formulação encontra uma ressonância particularmente importante na psicanálise. O inconsciente também nos confronta com uma temporalidade que não obedece inteiramente ao calendário. Experiências infantis podem reaparecer nos vínculos adultos, conflitos aparentemente superados retornam sob outras formas e acontecimentos passados adquirem novos significados quando revisitados pela palavra. Entretanto, repetição não significa destino. Na experiência analítica, aquilo que retorna pode encontrar outras possibilidades de simbolização, permitindo que o sujeito construa uma relação diferente com sua própria história. Essa perspectiva também nos convida a questionar a exigência contemporânea de superação permanente. Somos pressionados a deixar o passado para trás, reinventar nossas vidas e transformar rapidamente o sofrimento em aprendizado. Mas elaborar não significa apagar. Tampouco começar novamente exige esquecer aquilo que nos constituiu. Talvez a transformação subjetiva aconteça justamente quando conseguimos reconhecer as marcas de nossa história sem continuar inteiramente submetidos a elas. Butler afirma que “A esperança não é apenas a aposta de que esses ideais serão realizados. É a luta necessária para realizá-los” . Embora sua reflexão pertença ao campo político, encontro nela uma provocação clínica: a esperança não precisa ser a certeza de um futuro melhor, mas a possibilidade de não permanecer aprisionado à repetição do passado. Afinal, quanto de nossa vida ainda é governado por uma história que acreditamos já ter terminado?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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