Cultura, literatura e sociedade

O esporte nunca é apenas um jogo

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:16

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🧐📄 *Textão do Dia* *O esporte nunca é apenas um jogo* "Não é a realidade que nos move, mas o sentido que damos a ela." Há quem considere o esporte apenas entretenimento. No entanto, basta assistir a uma final de campeonato para perceber que algo muito mais profundo está em jogo. Pessoas choram, comemoram, sofrem e organizam parte de sua identidade em torno de um time. Se fosse apenas um jogo, por que despertaria emoções tão intensas? Essa é justamente a pergunta feita por Jack Black e Joseph Reynoso no artigo Just a Game? Sport and Psychoanalytic Theory. Os autores afirmam que o esporte parece tratar de algo sem grande utilidade prática, mas, paradoxalmente, mobiliza desejos, afetos e fantasias que atravessam indivíduos, comunidades e até nações. Freud nos ensinou que o sujeito não é guiado apenas pela razão. O desejo nasce da falta e nunca encontra satisfação definitiva. Talvez seja por isso que o torcedor nunca se contenta com uma conquista: depois do título, já espera a próxima temporada. O prazer não está apenas em vencer, mas em continuar desejando. Lacan radicaliza essa compreensão ao afirmar que "o desejo é o desejo do Outro". Ao torcer, identificamo-nos com uma equipe, uma história e um grupo. A vitória parece confirmar algo sobre quem somos; a derrota, por sua vez, toca perdas e frustrações que ultrapassam o campo esportivo. Os autores recorrem ainda a Slavoj Žižek para lembrar que o importante não é distinguir ficção e realidade, mas compreender a "realidade das ficções". Sabemos que uma partida não define objetivamente nossa vida, mas vivemos aquele momento como se definisse. É essa fantasia compartilhada que produz efeitos emocionais absolutamente reais. A psicanálise nos convida, então, a olhar para o esporte não como uma fuga da realidade, mas como um espaço privilegiado onde nossos desejos, identificações e conflitos se tornam visíveis. No fundo, não torcemos apenas por um clube. Torcemos por algo de nós mesmos. Talvez a pergunta mais importante não seja por que levamos um jogo tão a sério, mas o que esse jogo revela sobre aquilo que, silenciosamente, continua jogando dentro de nós.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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