Amor, vínculos, desejo e luto

A solidão que sustenta o verdadeiro self

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:57

2 min de leitura
🧐📄*Textão do dia* *A solidão que sustenta o verdadeiro self* Há em cada ser humano uma região que ninguém consegue alcançar por inteiro. Christopher Bollas, ao retomar Winnicott nos primeiros capítulos de *Essential Aloneness*, mostra que essa solidão não nasce necessariamente do abandono. Ela pertence à própria constituição do sujeito. Winnicott afirma que, ao longo da vida, permanece em nós uma “solidão fundamental, inalterável e inerente”. Não se trata apenas de estar sem companhia, mas de reconhecer que existe um núcleo íntimo que não pode ser completamente comunicado, explicado ou compartilhado. Antes mesmo da relação com o outro, haveria um estado simples de ser, uma continuidade silenciosa da existência. Entretanto, para que essa solidão possa ser vivida sem se transformar em desamparo, ela precisa ser sustentada por um ambiente suficientemente bom. No início da vida, o bebê depende concretamente de alguém que preserve sua continuidade de ser. A presença materna não produz a personalidade da criança, mas oferece condições para que seu potencial encontre expressão. Bollas lembra que o ambiente “não faz a criança”; na melhor das hipóteses, permite que ela realize aquilo que já existe como possibilidade. Por meio do cuidado, do *holding* e da apresentação gradual do mundo, a mãe protege o bebê de intrusões excessivas e reconhece seus movimentos espontâneos. É desse encontro que pode surgir o verdadeiro self. Para Winnicott, ele nasce da “vivacidade dos tecidos do corpo” e do funcionamento corporal, como os batimentos cardíacos e a respiração. O verdadeiro self não é uma identidade rígida, nem uma imagem ideal de quem deveríamos ser. É a experiência de sentir-se vivo, real e autor dos próprios gestos. Quando um gesto espontâneo encontra acolhimento, ele pode transformar-se em experiência. Quando é repetidamente interrompido, ignorado ou substituído pela expectativa do outro, o sujeito aprende mais a reagir do que a existir. A Clínica pode ser este lugar que não que invade a solidão do analisando, mas aquele que oferece presença suficiente para que ele possa habitá-la sem desaparecer. Afinal, tornar-se si mesmo não significa viver sem o outro, mas descobrir que é possível estar só na presença de alguém.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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