A compulsão não nasce da droga, nasce da falta de representação
🧐📄 *Textão do Dia*
*A compulsão não nasce da droga, nasce da falta de representação*
Freud jamais escreveu uma teoria sistemática das adicções. Ainda assim, seus primeiros trabalhos permanecem surpreendentemente atuais para compreendermos por que alguém passa a depender de uma substância, de uma pessoa ou de um comportamento. O ponto central não é o objeto da compulsão, mas a economia psíquica que faz desse objeto uma tentativa desesperada de restaurar um equilíbrio interno.
Em seus estudos sobre as **neuroses atuais**, Freud (1895) sugeria que determinadas formas de sofrimento decorriam da incapacidade do aparelho psíquico de elaborar certos níveis de excitação. Mais tarde, ao formular o **princípio de constância**, afirmou que o psiquismo tende a reduzir tensões e manter um nível suportável de excitação. Como escreve em seu *Projeto para uma Psicologia Científica*: **"O sistema nervoso é um aparelho que tende a livrar-se das quantidades de excitação que o atingem."**
Sob essa perspectiva, a compulsão deixa de ser um simples "vício" para tornar-se uma solução precária diante do excesso pulsional. Quando a experiência emocional não encontra palavras, representações ou um outro capaz de acolhê-la, o corpo passa a falar através do ato.
Essa compreensão ganha ainda mais força com o desenvolvimento da metapsicologia freudiana. A pulsão não é um instinto biológico, mas uma exigência de trabalho imposta ao psiquismo. Como Freud (1915) afirma: **"A pulsão é o representante psíquico dos estímulos oriundos do interior do organismo."** Quando esse trabalho fracassa, a descarga imediata pode substituir a simbolização.
Autores posteriores ampliaram essa hipótese ao aproximar a adicção das falhas iniciais da constituição subjetiva. A oralidade, a dependência absoluta do bebê e os processos de incorporação revelam que o objeto adictivo frequentemente ocupa o lugar de um objeto primário incapaz de ser suficientemente internalizado. Não se busca apenas prazer; busca-se uma forma de sustentação psíquica.
Talvez por isso a clínica das adicções nos ensine que retirar o objeto não basta. É preciso construir aquilo que nunca pôde ser plenamente constituído: uma capacidade de transformar excitação em pensamento, ausência em representação e dependência em vínculo. A verdadeira abstinência começa quando o sujeito já não precisa mais agir aquilo que finalmente consegue simbolizar. <Mensagem editada>
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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