Clínica e técnica psicanalítica

Adicção: quando o objeto passa a possuir o sujeito

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:47

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🧐📄 *Textão do dia* *Adicção: quando o objeto passa a possuir o sujeito* Costumamos pensar a adicção como sinônimo de drogas. Contudo, Décio Gurfinkel amplia radicalmente essa compreensão ao afirmar que o núcleo da adicção não está no objeto consumido, mas na relação que o sujeito estabelece com ele. A droga, o álcool, a comida, o trabalho, o celular ou até mesmo um relacionamento amoroso podem ocupar a mesma função psíquica: tornar-se um objeto do qual o sujeito acredita não poder mais viver sem. Logo na introdução, Gurfinkel escreve: "O vício é um dos aspectos mais enigmáticos da natureza humana." — Décio Gurfinkel. A partir dessa afirmação, ele nos convida a abandonar explicações simplistas e a investigar aquilo que Freud chamou de compulsão à repetição, isto é, a tendência do sujeito a repetir experiências que escapam à simbolização. Como lembra Gurfinkel: "As adicções refletem [...] aquilo que Freud chamou de 'compulsão à repetição'." Essa perspectiva dialoga diretamente com Freud, que escreveu: "O paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas o atua." (Recordar, Repetir e Elaborar, 1914). A repetição, portanto, deixa de ser uma simples escolha consciente e passa a expressar um sofrimento que ainda não encontrou palavras. Outro ponto instigante do livro é a aproximação entre adicção e paixão. Gurfinkel afirma: "Podemos pensar que a adicção é uma forma de paixão, e que a paixão é uma espécie de amor viciado ou vício amoroso." Aqui, o autor nos lembra que qualquer objeto pode adquirir um lugar absoluto na economia psíquica, aprisionando o sujeito justamente onde ele buscava liberdade. Talvez essa seja a pergunta clínica mais importante: quando um prazer deixa de ser uma escolha e passa a organizar toda a existência? Nesse momento, o objeto deixa de servir ao sujeito; é o sujeito que passa a viver em função do objeto. Compreender essa inversão é um dos maiores legados da psicanálise para a clínica das adicções.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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