Amor, vínculos, desejo e luto

A solidão que nos habita

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 07:54

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *A solidão que nos habita* Há uma solidão que não nasce do abandono. Não é aquela que sentimos quando alguém vai embora, quando uma relação termina ou quando percebemos que ninguém parece nos compreender. É uma solidão anterior a tudo isso. Em *Solidão Essencial*, Christopher Bollas retoma Winnicott para pensar esse território profundo do sujeito: uma dimensão do ser que existe antes mesmo de nossas relações mais elaboradas com o outro. Para Winnicott, carregamos ao longo da vida algo dessa **solidão essencial**, geralmente como uma parte silenciosa e até pacífica de nossa personalidade. Talvez por isso amadurecer não signifique eliminar a solidão, mas conseguir habitá-la. Isso muda também nossa maneira de pensar a clínica. Há momentos em que o paciente permanece em silêncio e o analista rapidamente pode imaginar resistência, defesa ou dificuldade de associação. Bollas, seguindo Winnicott, propõe outra possibilidade: alguns silêncios não precisam ser rompidos. Podem representar justamente a experiência de **estar só na presença de alguém**. Nesse instante, o analista não invade, não exige palavras, não transforma imediatamente o silêncio em interpretação. Ele permanece. E permanecer pode ser uma forma profunda de cuidado. Essa ideia se aproxima do verdadeiro self. Para Winnicott, aquilo que há de mais próprio no sujeito aparece na vivacidade, na espontaneidade, no gesto que pode encontrar lugar no mundo. Esse verdadeiro self não nasce pronto como identidade acabada; ele precisa de um ambiente suficientemente facilitador para tornar-se uma realidade viva. Talvez uma das funções mais delicadas da análise seja justamente essa: oferecer um encontro no qual o sujeito possa pouco a pouco existir sem precisar imediatamente adaptar-se, explicar-se ou corresponder às expectativas do outro. Porque há experiências que precisam de palavras. Mas há também partes de nós que talvez nunca sejam completamente traduzidas. E, às vezes, saúde psíquica é poder estar acompanhado sem deixar de estar consigo mesmo.

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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