A agressividade não começa no soco
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*A agressividade não começa no soco*
Quando pensamos em agressividade, é fácil imaginar gritos, violência, ataque. Lacan, em “A agressividade em psicanálise”, nos obriga a ir além. Para ele, a agressividade não aparece apenas quando alguém agride concretamente outra pessoa. Ela atravessa a própria maneira como o sujeito se constitui e se relaciona com o outro.
Na experiência analítica, ela pode surgir quase silenciosamente: nas hesitações, nos lapsos, nos atrasos, nas ausências, nas recriminações, na oposição e até na maneira como alguém conta sua própria história. Lacan a situa como uma intenção agressiva que pode aparecer no discurso muito antes de transformar-se em ato.
Mas de onde vem essa tensão?
Uma das respostas passa pela imagem. Antes de possuir pleno domínio de seu corpo, a criança encontra no semelhante e na própria imagem uma unidade que ainda não experimenta inteiramente em si. É nesse terreno que Lacan articula agressividade, narcisismo e estádio do espelho. O outro é fascinante porque oferece uma imagem de completude, mas justamente por isso também pode tornar-se rival.
O desejo entra nessa cena. Quando o objeto aparece como objeto desejado também pelo outro, a relação especular pode transformar-se em concorrência. O semelhante deixa de ser apenas aquele com quem me identifico e passa a ocupar o lugar daquele que ameaça possuir aquilo que desejo. Para Lacan, é nessa tensão que se articulam eu, outro e objeto.
Isso muda nossa maneira de pensar a clínica.
O analista não precisa eliminar a agressividade do analisando nem enfrentá-la diretamente. Ao contrário, Lacan mostra que ela participa da transferência e pode até precisar aparecer. O cuidado está em não oferecer ao paciente uma imagem pessoal tão consistente que transforme o tratamento numa batalha entre dois eus.
Talvez seja essa uma das provocações mais importantes do texto: muitas vezes, aquilo que mais irritamos no outro toca justamente alguma coisa da imagem pela qual tentamos sustentar quem acreditamos ser.
Por isso, na psicanálise, a pergunta não é apenas “por que estou com raiva dele?”
Talvez seja também:
“O que há dele em mim que eu não suporto encontrar?”
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
Reprodução integral do texto original, incluindo marcas de formatação e eventuais avisos de edição do WhatsApp. Sem correção ou reescrita.
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