Teoria e conceitos

O retorno que corta

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 16:41

2 min de leitura
🧐📄 *Textão do Dia* *O retorno que corta* Há um momento na história da psicanálise em que não se trata mais apenas de seguir Freud, mas de decidir o que significa, de fato, retornar a ele. O capítulo sobre “Do retorno a Freud ao último freudiano” nos coloca diante de uma virada delicada: quando Jacques Lacan propõe esse retorno, ele não está defendendo uma repetição fiel, mas uma leitura radical, capaz de atravessar as distorções institucionais e recolocar a psicanálise em contato com sua própria origem — o inconsciente. Retornar, aqui, não é olhar para trás com nostalgia, mas cortar o que se cristalizou como saber morto. Esse corte, no entanto, não é apenas teórico. Ele é transferencial. Lacan percebe que o problema da psicanálise não está só nas ideias que se transmitem, mas no modo como se transmitem — ou seja, na relação entre quem ensina e quem aprende, entre o analista e a instituição. Ao propor uma ruptura com a IPA e fundar sua própria Escola, ele não apenas critica um modelo: ele encarna um gesto que reposiciona o lugar do analista. Mas é justamente aí que reside a tensão: como romper com a autoridade sem, ao mesmo tempo, recriá-la em outra forma? O que o texto revela com força é que toda tentativa de “salvar” a psicanálise corre o risco de transformá-la novamente em sistema, em doutrina, em lugar de poder. O “último freudiano” não é apenas aquele que retorna a Freud, mas aquele que, ao fazer isso, ocupa um lugar central de referência — quase inevitavelmente. A pergunta que atravessa esse movimento é incômoda e necessária: é possível escapar da lógica institucional sem produzir uma nova instituição marcada pelos mesmos impasses? Talvez o ponto mais vivo desse capítulo seja nos lembrar que a psicanálise não se sustenta na pureza de uma teoria, mas na tensão constante entre desejo, saber e poder. E que todo retorno verdadeiro implica risco — o risco de perder garantias, de abandonar certezas e de sustentar uma posição ética diante do inconsciente. E fica a pergunta: quando dizemos que seguimos Freud — ou qualquer mestre — estamos realmente escutando o inconsciente… ou apenas repetindo uma forma já autorizada de pensar?

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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