Teoria e conceitos

Quando a falta falta

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:45

2 min de leitura
🧐📄**Textão do dia* *Quando a falta falta** E se a angústia não surgisse porque alguma coisa nos falta, mas justamente porque algo aparece onde deveria haver uma falta? No capítulo III de *O Seminário, livro 10: A angústia*, Lacan percorre um caminho que vai do mundo à cena e, finalmente, à *Unheimlichkeit*, o estranho familiar. Para ele, não habitamos simplesmente um mundo dado. Há o mundo e há o palco onde esse mundo é organizado pelo significante. Lacan formula: “primeiro tempo, o mundo. Segundo tempo, o palco em que fazemos a montagem desse mundo.” É nessa cena que nossa história, nossos objetos e nossa própria imagem encontram lugares e sentidos. Mas nem tudo cabe nessa montagem. Na imagem que construímos de nós mesmos permanece uma lacuna. Lacan situa aí o *menos-phi (-φ)* e introduz o objeto *a* como resto, algo que escapa à imagem especular. O objeto a não é simplesmente aquilo que desejamos possuir; ele ocupa uma posição muito mais radical na estrutura do desejo. É justamente nesse ponto que a angústia começa a ganhar outra leitura. Costumamos imaginar que ficamos angustiados diante do vazio, da ausência, do que perdemos. Lacan desloca essa intuição. Retomando o *Unheimlich* freudiano, afirma que o estranho surge quando alguma coisa aparece exatamente no lugar onde deveria permanecer a falta. Sua formulação é desconcertante: *“a falta vem a faltar.”* Não é simplesmente o desconhecido que angustia. Às vezes é justamente o excessivamente próximo. Algo que deveria permanecer fora da imagem retorna dentro dela; aquilo que sustentava silenciosamente o desejo torna-se presença. Talvez por isso certas experiências nos sejam tão difíceis de explicar: não encontramos algo completamente estrangeiro, mas alguma coisa íntima demais para ser reconhecida. A angústia aparece, então, não apenas quando perdemos alguma coisa, mas quando o espaço necessário para desejar começa a desaparecer. *Quanto de nossa angústia nasce não do vazio, mas da impossibilidade de preservar algum vazio?*

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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