O diagnóstico não pode ser a última palavra
🧐📄 **Textão do dia**
*O diagnóstico não pode ser a última palavra*
Quando alguém chega à clínica, o diagnóstico deve dizer quem essa pessoa é?
No primeiro capítulo de *A querela dos diagnósticos*, Colette Soler coloca o problema em outro lugar. Para a psicanálise de orientação lacaniana, não se trata de abandonar o diagnóstico. O saber clínico importa porque *“o saber clínico orienta a ação”*. Sem alguma leitura da estrutura e dos fenômenos apresentados pelo sujeito, o analista corre o risco de intervir às cegas — e, em determinadas situações, uma intervenção equivocada não é apenas inútil, pode ser perigosa.
Mas isso não transforma o sujeito em seu diagnóstico.
Soler chama atenção para uma diferença fundamental entre aquilo que pode ser observado e aquilo que é vivido. Há o sintoma visível, reconhecível pela clínica, e existe também o *“sintoma invisível”*, aquele que o próprio sujeito experimenta. É possível que, olhando de fora, “tudo vá bem” e, ainda assim, algo não vá.
Talvez seja justamente aí que a psicanálise se afaste da tentação de fazer do diagnóstico uma identidade.
Diagnosticar introduz alguma possibilidade de cálculo, porque supõe que existem estruturas, mecanismos e diferenças que orientam a direção do tratamento. Mas Soler acrescenta uma formulação que merece ser guardada: *“o melhor que se pode fazer na psicanálise é um cálculo que dê lugar ao incalculável”*.
O incalculável é justamente aquilo que nenhuma categoria consegue dizer inteiramente sobre alguém.
E existe ainda um risco. Toda predicação toca o sujeito. Um diagnóstico pode orientar a clínica, mas também pode aprisionar aquele que passa a ser visto — ou passa a se ver — apenas pelo nome que recebeu. Soler reconhece, sem suavizar, a *“violência do diagnóstico”*, insistindo que ele pode ser necessário, mas não deve constituir a última palavra da prática analítica.
Talvez a responsabilidade clínica esteja justamente nisso: *diagnosticar sem reduzir, orientar-se pela estrutura sem perder de vista a singularidade.*
Porque compreender como alguém sofre é necessário.
Confundir isso com quem alguém é, não.
Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.
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