Infância, trauma e constituição do sujeito

Quando ainda não existem palavras para aquilo que foi vivido

Michel Francisco

Publicado no grupo em , às 06:38

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🧐📄 *Textão do dia* *Quando ainda não existem palavras para aquilo que foi vivido* O que fazemos, na clínica, quando o paciente não consegue dizer o que sente porque aquilo que o atravessa ainda não chegou a se constituir como pensamento? No capítulo 11 de *Unrepresented States and the Construction of Meaning*, Giuseppe Civitarese parte justamente desse problema. Há experiências, especialmente ligadas a traumas muito precoces, que não funcionam como lembranças reprimidas esperando uma interpretação. Elas pertencem ao que, retomando Bion, o autor chama de *“inconsciente inacessível”*: marcas que não chegaram a adquirir uma forma representável e, portanto, não podem simplesmente ser recordadas e narradas. Por isso, às vezes o paciente não traz sonhos, associações ou histórias. Traz silêncio. Vazio. Monotonia. Uma sessão na qual aparentemente nada acontece. Para Civitarese, porém, esse “nada” também comunica. O irrepresentado pode aparecer no campo analítico através do corpo, dos atos, das rupturas do enquadre, da pobreza de palavras ou da própria sensação de paralisia experimentada pela dupla. É aqui que a *rêverie do analista* ganha uma função decisiva. Não se trata de descobrir rapidamente um significado escondido, mas de oferecer um aparelho capaz de sonhar aquilo que o paciente ainda não consegue sonhar. A experiência emocional vai adquirindo imagem, contorno e possibilidade de pensamento. Civitarese utiliza uma imagem belíssima: o sentido precisa ser construído *“pictograma por pictograma”*. No caso clínico apresentado, pequenas imagens começam a povoar um campo antes vazio. O puma torna-se gato; aquilo que antes aparecia como emoção violenta e impossível de manejar começa a adquirir uma forma que pode ser pensada. Talvez uma das delicadezas dessa clínica esteja justamente aí: não exigir palavras onde ainda não existem palavras. Antes de interpretar o sonho, às vezes é preciso ajudar alguém a construir a capacidade de sonhar. *E quantas vezes chamamos de silêncio aquilo que, na verdade, ainda está procurando uma forma para existir?*

Publicado originalmente no grupo Psicanálise & Curadoria.

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